domingo, 26 de fevereiro de 2012

Roy Spencer VII

- É aqui? – perguntou o taxista, com um forte sotaque oriental, a condizer com os seus rasgos faciais que levavam a pensar que provinha algures do sub-continente indiano.
- Sim. É aqui.- respondeu Roy Spencer, reconhecendo a casa de campo da família Joyce, mesmo apesar da densa camada de chuva que caía sobre a noite Inglesa, e embaciava as janelas do táxi.

A revelação da noite anterior havia abalado Roy Spencer seriamente. Por um lado, sentia-se traído pelo seu melhor amigo. Durante todos aqueles anos tinha visto em Edward Joyce um modelo de virtude. Um verdadeiro exemplo, tanto como pai de família como agente da lei. Agora, no entanto, era obrigado a aceitar o fato que Edward tinha se deixado corromper. Que, em algum momento, ele tinha deixado de ser o valoroso Edward que Roy havia conhecido tantos anos atrás na academia de polícia. Por outro lado, se Edward tinha sido de fato assassinado, era o seu dever como amigo vingar a sua morte. Uma missão que Roy Spencer, agora um ancião, não se sentia inteiramente capaz de levar a cabo.
De qualquer forma, Roy sentia-se na obrigação de investigar a morte do seu velho amigo. Havia dado a sua palavra a Meredith, e mesmo que não o tivesse feito, a sua amizade com Edward constrangia-o a tal. Por isso, ao final da tarde, após refletir cuidadosamente sobre o caso,chamou um taxi e rumou em direção à casa de campo de Edward e Meredith Joyce em Surrey.
Edward tinha sido encontrado morto na sua casa de campo, com uma bala na cabeça. Quando foi descoberto, o seu corpo jazia no solo de madeira da ampla sala de estar. Segurava a pistola que havia realizado o disparo mortal. Uma ampla poça de sangue regava o chão à sua volta. Tinha sido o seu filho Henry a encontrar o corpo e a chamar a polícia. Antes de suicidar-se, Edward tinha escrito uma carta. A versão original tinha sido requisitada pela polícia como prova, mas Meredith tinha recebido uma cópia, que havia mostrado a Roy:


Queridos familiares e amigos,

É com uma certa tristeza que vos escrevo esta derradeira carta. São estas as minhas últimas palavras, e espero que não vos provoquem demasiada tristeza. São palavras de despedida. A última despedida. Quando leiais esta carta, o fareis certamente com o conhecimento que não me encontro mais entre vós. Pela dor provocada por este meu último ato, vos peço sinceras desculpas. A minha decisão, no entanto, já está tomada. Espero que possais perdoar-me, sabendo as razões que me levaram a tal ato.
Por mais que vos ame, Meredith, Henry e Samantha, não consigo afastar a sensação que os meus melhores dias já passaram. Todos os dias acordo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, começarei a perder a razão, até que um dia não serei mais eu próprio. Todas as manhãs desperto com a consciência de que, a cada dia que passa, mais débil o meu corpo se torna, até que, uma manhã qualquer, não serei capaz de me levantar da cama sem ajuda. Cada vez que olho no espelho estou mais velho e cansado e nada que eu faça poderá alterar essa tendência. Como todas as criaturas vivas dotadas de consciência, tenho medo da morte. No entanto, quanto mais me aproximo dela, menos ameaçadora se torna. Por outro lado, é a velhice que me apavora. Não a velhice de agora, mas a velhice do futuro. Não consigo suportar a idéia de que um dia não poderei mais caminhar sem a ajuda de alguém ou, pior ainda, que não serei o mesmo, que até mesmo as minhas faculdades mentais pouco a pouco irão se mermando. Este é um medo que me consome, dia a dia, e ao qual não consigo já resistir. Convido portanto a morte a levar-me agora, enquanto conservo a minha dignidade.
À minha mulher Meredith e aos meus filhos, amo-vos de todo o coração. Aos meus bons amigos, agradeço-vos pelos bons momentos partilhados ao longo de muitos anos.

Edward Joyce


Meredith havia confirmado que a letra era a de Edward. Quanto a isso não havia dúvida, tinha sido ele a escrever a carta. Ou ele, ou alguém capaz de copiar a sua letra.
A carta de despedida era comovente e os sentimentos nela expressos não eram alheios à forma como o próprio Roy encarava este derradeiro período da sua vida. O motivo do suicídio era portanto, à partida, plenamente credível. Não fosse pela revelação de Meredith na noite anterior, que certamente criava certas suspeitas respeito ao momento escolhido por Edward para se suicidar. Por outro lado,não havia alguma referência ao caso de corrupção na carta de Edward. Se realmente ele se sentia tão culpado, certamente esse poderia ser um forte motivo para o suicídio. Ou, no mínimo, Edward teria feito alguma alusão ao caso na sua carta de despedida. É certo que talvez Edward tivesse escolhido não referir o assunto temendo que a carta fosse lida pelas pessoas erradas, mas mesmo que assim fosse, uma sutil referência ao seu sentimento de culpa não colocaria Meredith ou os seus filhos em perigo algum. Finalmente, um outro motivo levara tanto Meredith como Roy a duvidar seriamente da autenticidade da carta. A pessoa que a tinha escrito havia revelado um considerável talento para a escrita. Tal contrastava com a personalidade de Edward, um homem de poucas palavras que nunca havia demonstrado grande interesse na literatura. Edward não era certamente um homem eloquente e se tivesse decidido, de facto, escrever uma carta de despedida, provavelmente teria sido muito mais discreta e de um caráter menos literário que aquela que Meredith e Roy tiveram a oportunidade de ler. Tal conclusão era partilhada por ambos, e Roy estava agora consideravelmente menos convencido de que o seu amigo tinha realmente se suicidado.
Ainda assim, Roy precisava de muito mais do que meras conjeturas, de forma a resolver o caso. Precisava de provas, para demonstrar realmente que o seu amigo tinha sido assassinado. E, certamente, precisaria de indícios que lhe permitissem descobrir quem estava por trás da morte de Edward.
Dizem que os criminosos sempre voltam ao lugar do crime. Mesmo que desta feita tal não ocoresse, visitar o local onde se havia produzido a morte do amigo poderia permitir a Roy encontrar alguma pista que o ajudasse a prosseguir a sua investigação. Era esse o motivo pelo qual Roy havia se deslocado até à casa de campo da família Joyce nessa noite. Não possuindo um carro já há alguns anos, Roy não tinha tido alternativa senão recorrer aos dispendiosos serviços de um taxista, o qual observa com satisfação o seu taxímetro, que marca um valor bastante alto.

- Então o senhor quer que espere por si aqui? - pergunta.
- Sim, como havíamos acordado. Não devo demorar muito, quinze, vinte minutos no máximo.-responde Roy.
- Sabe,enquanto espero tenho que deixar o taxímetro correr. Se eu estivesse no seu lugar não me demoraria muito.
- Eu sei. Procurarei não demorar. Obrigado. – diz Roy, antes de abrir a porta do taxi e abandonar o vehículo. Imediatamente sente como a chuva golpeia a sua cara, e como o frio intenso permeia facilmente a sua gabardine.
Caminha rapidamente na direção da casa, mergulhando os seus sapatos na terra lamacenta. Em meio minuto encontra-se em frente à casa. É uma estructura de doia andares, construída em madeira, rodeada apenas por uma considerável extensão de verdes campos, uma paisagem tipicamente inglesa. Uma estreita estrada de terra dá acesso à moradia, e quando Roy olha para trás, vê como o taxista lhe acena de dentro do carro. Roy procura no seu bolso a chave que Meredith lhe tinha dado na noite anterior e, após encontrá-la, insere-a na fechadura. A porte abre e Roy entra na moradia, deixando a chuva e o frio atrás de si.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Roy Spencer - VI

Uma vez mais, Roy caminha ao longo do corredor, envolto pela escuridão. Desta feita,a cada passo que dá, sente como o chão abaixo de si é pegajoso. Como se estivesse coberto por uma substância líquida,mas não como água, mais densa. Continua a caminhar sentindo como os seus sapatos se afundam na substância que reveste o chão de madeira. Após alguns instantes, começa a vislumbrar um clarão ao fundo do corredor. A cada passo dado, mais forte se torna a luz e mais evidente se torna que a substância que alaga o chão é um líquido encarnado, sem dúvida sangue. Litros e litros de sangue, como seria necessário para alagar um longo corredor. Roy receia descobrir a sua origem, mas tal torna-se inevitável à medida que continua a caminhar. Encontra-se novamente na mesma ampla sala, mal iluminada. Ao centro, uma cadeira. Sentada na cadeira, uma forma humana. Roy sabe que se trata, mais uma vez, do seu amigo Edward. Embora desta vez ele não seja sequer reconhecível. É uma figura com forma humana, mas aparentemente sem pele, ou cabelos. É uma massa vermelha da qual emana uma inesgotável torrente de sangue. As suas feições faciais são praticamente irreconhecíveis. No lugar da boca só se pode ver um buraco, e no lugar dos olhos, somente dois esféricos de cor totalmente branca, que produzem algo semelhante a um olhar, mas mil vezes mais aterrorizador do que o olhar de qualquer ser humano.
Roy aproxima-se lentamente da horrenda figura.
E eis que uma voz gutural ecoa no salão:
- Roy Spencer! O momento chegou. O caminho está traçado. Deves fazê-lo!
- Edward? Não entendo... o que éque eu devo fazer? Diz-me!
- Tu sabes... sempre soubeste. Está dentro de ti. Segue a tua intuição e começa a tua travessia. Encontrarás a resposta, se tiveres a coragem de procurá-la... Busca a verdade Roy Spencer, sempre!

Sem saber nem como nem porquê, Roy dá por si uma vez mais caminhando ao longo de um corredor escuro. Sabe no entanto que este é um corredor diferente, um pouco graças à sua intuição, mas também porque o chão já não é pegajoso, nem está coberto por líquido algum. Passam-se alguns instantes, e o corredor desemboca num amplo quarto. Rapidamente, Roy se dá conta que se trata do seu próprio quarto. Uma mulher jaz na sua cama de casal. A iluminação no quarto é tênue, mas Roy reconhece-a imediatamente. É a sua própria esposa, Laura, falecida há três anos atrás. Roy despe a sua gabardine, e pendura-a num cabide na parede. Depois, deita-se na cama, ao lado da sua mulher, enquanto se descalça. Aos olhos de Roy, ela é a mulher mais linda do mundo naquele momento. Mesmo apesar das numerosas rugas, que marcam a passagem do tempo. Os olhos dela estão fechados, mas Roy percebe que ele não está morta. Está simplesmente dormindo. Durante alguns segundos, ela permanece imóvel enquanto Roy a observa com deleite. Oh, quão solitária se tornou a sua vida, desde que a sua companheira partiu! Roy sabe perfeitamente que se trata de um sonho, embora parte do seu cérebro se negue a admiti-lo. A única coisa que se move, nesses preciosos instantes, é o ventre de Laura,que oscila levemente, ora para cima, ora para baixo, marcando o ritmo da sua respiração.
Finalmente, ela abre os olhos e gira-se na direçãode Roy. Os seus olhares se cruzam, e ambos mergulham no olhar apaixonado do outro. Os seus rostos estão separados apenas por alguns centímetros, mas não se chegam a tocar. Roy consegue sentir a sua respiração. Sabe que não podem estar juntos, excepto em sonhos. Um enorme oceano os separa. Ela faz parte de um mundo, ele de outro. Antes de adormecer outra vez ela sussura-lhe, ‘Algum dia voltaremos a estar juntos, mas antes disso, deves terminar de escrever a tua história.’ Roy segura na mão dela, e fecha os olhos. Quando volta a abri-los, está deitado na mesma cama, no mesmo quarto, mas sozinho.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Roy Spencer # 5

Alguns minutos depois de chegar a casa, Roy escuta o telefone tocar. Atende após alguns segundos, e escuta a voz de uma mulher no outro lado da linha.
- Olá Roy, sou eu, Meredith.
- Olá Meredith... está tudo bem? – pergunta Roy, algo surpreso.
- Sim, está tudo bem. Tenho tentado telefonar-te a tarde inteira.
- Estava na casa de Dora. Costumo lá jantar nas quartas-feiras. Precisas de alguma coisa? Está tudo bem com o Henry e com a Sam?
- Sim, eles estão bem. Mas eu gostaria de falar contigo.
- Okay, claro. Se quiseres podemos nos encontrar amanhã e conversar.
- Na verdade, se não for um incômodo, eu preferiria falar contigo hoje.
- Hum...é urgente?
-Não exatamente. Mas eu gostaria de falar contigo em pessoa, e preferiria que fosse hoje.
- Okay, eu vou apanhar um taxi agora. – disse Roy após alguns instantes de hesitação.
- Não te preocupes. Eu posso encontar-te na tua casa. Estarei aí em menos de uma hora.
- Tens a certeza? – pergunta Roy.
- Sim, não há problema. Até logo. – diz a viúva antes de desligar.
Cerca de meia-hora depois, Meredith chega à casa de Roy. Após ouvir a campainha tocar, Roy abre a porta à viúva. Entretanto, tinha começado a chover.
Roy convida Meredith a entrar, e ela aceita o convite.
- Está chovendo torrencialmente. Este tempo é horrível. – Queixa-se a viúva, enquanto fecha o guarda-chuva.
- Obrigado – diz Meredith enquanto entrega a Roy o casaco e o guarda chuva molhados. Roy pendura o casaco num cabide na parede do hall de entrada e coloca o guarda chuva num pequeno balde juntamente com outros três guarda-chuvas lá guardados. – Não faz mal Roy, para falar a verdade eu precisava sair de casa, mudar de ambiente, mesmo que seja por pouco tempo.
- Entendo.- diz Roy – Gostarias de beber uma chávena de chá?
- Sim, obrigado.
Roy prepara duas chávenas de chá, e oferece também biscoitos a Meredith, enquanto os dois se instalam na cozinha, onde Roy costma tomar as suas refeições. Há meses que a mesa na sala de jantar não é utilizada.
- Pelo telefone não chegaste a dizer-me sobre o quê querias conversar Meredith. Suponho que se trate de Edward.
- Sim... não queria conversar pelo telefone. É um assunto delicado, e de qualquer forma acho que é melhor conversar em pessoa. Roy, preciso pedir-te um favor.- diz a viúva, com uma expressão de grande seriedade.
- Claro, claro Meredith. O que precisares. De que se trata? – disse Roy, algo preocupado.
- Eu gostaria que investigasses a morte do Edward.
- O que é que queres dizer?
- Eu não acredito que ele tenha se suicidado, é isso que querodizer.
As palavras da viúva penetram o peito de Roy como uma faca.
- O que te leva a dizer isso?
- Porque não faz sentido. Não digo que seja completamente impossível, mas eu tenho as minha dúvidas. E por isso preciso que me ajudes a descubrir se ele realmente se suicidou, ou se alguém quis que parecesse que foi isso que aconteceu.
- Meredith, não me parece que Edward tenha muitos inimigos. Isso que sugeres, é bastante improvável. Quem poderia ter sido o responsável? Quem poderia ter um motivo forte o suficiente?
- Eu suspeito que tenha sido alguém que ele conhecia. Alguém do seu passado como agente da polícia.
- Alguém que ele prendeu, ou ajudou a prender?
- Talvez... ou talvez algum dos seus ex-colegas.
- O que é que queres dizer? – perguntou Roy, chocado.
- Nos últimos meses, Edward tinha começado a comportar-se de forma estranha. Talvez tenhas notado...
- É verdade que, de certa forma, parecia que me estava a evitar.
- Isso é porque estava. Algumas semanas antes de morrer confessou-me uma coisa que não teve coragem de dizer-te nunca. Durante muitos anos, ele tinha aceite um envelope todos os meses, tal como muitos dos seus colegas. O envelope era para se manter calado, em relação a certas questões... guardar alguns segredos, encobrir alguns criminosos e até certos membros corruptos da polícia. Dias antes de morrer ele disse-me que ia denunciar as pessoas que ele sabia estar envolvidas, mesmo que isso significasse ser preso. Ele disse que isso era a coisa certa a fazer. – Meredith parou por alguns instantes, não conseguindo conter algumas lágrimas. Roy entretanto não conseguia proferir sequer uma palavra, chocado como estava. Depois prosseguiu – Por isso, como vês Roy, eu tenho boas razões para duvidar da versão oficial dos acontecimentos. Sei que estás decepcionado, mas acredito que farás a coisa certa e honrarás a memória de Edward. Ele amava-te como um irmão. Investigarás este último caso Roy Spencer? Aceites o meu pedido?
-Sim. – responde Roy, após alguns instantes de hesitação.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Roy Spencer # 4

Roy toca a campainha. Alguns instantes mais tarde, a porta abre-se à sua frente. A sua filha, Dora, cumprimenta-o com um beijo na bochecha esquerda.
- Entra pai. Como estás?
- Estou bem, obrigado. E tu?
- Tudo bem. Como sempre. Eu e o Jack trabalhamos bastante e raramente temos tempo para nós próprios, a Sarah costuma se sair bastante bem na escola, e o William um pouco menos...
Dora e Jack haviam se conhecido há mais de duas décadas atrás quando ambos eram estudantes na Universidade de Leeds. Jack estudava engenheria então, e Dora estudava Francês e Espanhol. Quando terminaram a faculdade mudaram-se para Londres, a cidade natal de Dora, onde Jack arranjou trabalho como engenheiro e Dora como professora. Há quinze anos atrás tiveram a Sarah e três anos depois o William. A família morava numa comfortável casa de dois andares e quatro quartos no bairro londrino de Kew Gardens, adquirida pouco depois do nascimento de William. Cerca de uma vez por semana, Roy visitava a residência da jovem família. O costume tinha originado alguns anos atrás, pouco depois do falecimento de Laura Spencer, a mulher de Roy e a mãe de Dora.
- Olá Roy, está tudo bem consigo? – perguntou Jack, o marido de Dora, enquanto o cumprimentava com um aperto de mão.Jack tinha quarenta e poucos anos. Era alto, magro e tinha cabelos loiros. Era um tipo simpático, e a relação entre ambos era cordial.
- Está tudo bem, obrigado. Onde estão as crianças? – disse Roy.
- Estão lá em cima, mas no seu lugar eu não os chamaria de crianças. Acho que agora temos de chamá-los de adolescentes. Principalmente a Sarah, ela tem quinze anos e acha que já é uma mulher crescida. –disse a filha de Roy, Dora.
- De acordo com o que eu me lembro, t não eras muito diferente quando tinhas a sua idade.-disse Roy Spencer.
No mesmo instante, Sarah e William desciam as escadas e se juntavam a Roy, Dora e Jack no hall de entrada.
- Aham! Finalmente alguém que me defende. Obrigado avô. –disse a jovem Sarah abraçando-o e dando-lhe um beijo.
- Haha, o teu avô estará sempre aqui para te defender. E tu Will,não me dás um abraço?
O pequeno Will, de cabelos castanhos claros e olhos verdes, deu então um caloroso abraço ao seu avô. Roy Spencer amava os seus dois netos mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, inclusive a sua filha Dora. Mas entre os dois, secretamente havia escolhido Will como o seu favorito. O sentimento era recíproco. William, que há um ano e pouco atrás tinha começado a interessar-se progressivamente por histórias de detectives e super-heróis, via o seu avô, um condecorado ex-detective como um herói.
- E então, pequeno Will, a tua mãe diz-me que as tuas notas não têm sido muito altas.
- Nem muito altas nem muito baixas. É difícil competir com a Sarah, ela tem sempre a nota mais alta em quase tudo.
- Se passasses a metade to tempo que passas lendo comics estudando também serias o melhor aluno da tua turma. – disse Dora.
- Certo. O problema é que os livros de matemática e ciência não são propriamente tão interessantes quanto as histórias do Batman ou do Homem-Aranha. – retorquiu William, motivando uma gargalhada geral. Até Dora não conseguiu deixar de sorrir perante a resposta astuta do pequeno William.
A família reunida disfruta do jantar preparado por Dora. A ementa é simples e tipicamente inglesa: jacket potatoes filled with chili con carne e salada como acompanhamento. Os adultos acompanham a refeição com uma garrafa de Chianti, as crianças (ou adolescentes, como certamente prefeririam ser designados) têm que se contentar com uma garrafa de Fanta de laranja. Como é habitual na velha Inglaterra, o jantar é servido cedo, por volta das sete horas.
Após o jantar, Sarah, Jack e William retomanos seus afazeres.Enquanto isso, Dora troca algumas palavras com o seu pai, antes de despedir-se dele.
- Sinto muito por não termos ido ao funeral do Edward pai... Eu e o Jack estamos sempre muito atarefados com os nossos respectivos trabalhos, e as crianças têm a escola... – desculpou-se Dora.
- Eu entendo... –disse Roy sem grande convicção.-Sabes que ele gostava de ti como se fosses a sua sobrinha de verdade...
- Eu sei...-respondeu Dora, num tom de culpa – Eu nem acredito que ele... A Meredith deve estar devastada. E o Henry e a Samantha também.
- Falaste com algum deles? –perguntou Roy.
- Não... ainda não. Não tive coragem. Mas vou telefonar. Como é que eles estão?
- Algo abalados. Mas sobreviverão. Como nós sobrevivemos...
- E tu? Como te sentes? Eu sei que ele era como um irmão para ti.
- Eu... também sobreviverei.
- Pai... sabes que se quisesses poderias vir morar conosco. Temos espaço, e assim passarias mais tempo comigo e com os teus netos. Tenho medo que te sintas demasiado sozinho naquela casa.
- Obrigado Dora, mas aquela é a minha casa. Não te preocupes comigo. Eu estou bem. Obrigado pelo jantar.
Roy despede-se da filha dando-lhe um beijo na testa, e mergulha de novo na fria noite londrina.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Roy Spencer # 3

Roy Spencer desperta repentina e bruscamente, dando por si prostrado no seu leito matrimonial onde dorme sozinho todas as noites, desde que a sua mulher faleceu há alguns anos atrás. Durante alguns segundos, sente uma franca dificuldade em respirar. Sem dúvida, tratou-se apenas de um pesadelo, algo a que Roy está certamente habituado.No entanto, existem diferentes tipos de pesadelo. Alguns são rápidos e muitas vezes nem nos lembramos deles quando acordamos. Outros, chegam a ser tão intensos que parecem verdadeiros,como se acontecessem realmente. O pesadelo que havia apenas despertado Roy pertencia sem dúvida à segunda classe descrita. Ainda com o pulso acelerado, e com uma ou outra gota de suor a escorrer-lhe pela face, Roy olha para o relógio na sua mesa de cabeceira. São quatro e meia da manhã, mais precisamente quatro horas e trinta e seis minutos.
Incapaz de voltar a adormecer, Roy decide levantar-se e começar o seu dia. No exterior, as ruas de Londres estão ainda desertas e permanecem cobertas pelo manto da noite.
Como todas as manhãs, Roy senta-se sozinho na sua cozinha e consome a primeira refeição do dia: torradas com marmelada de laranja e uma chávena de chá com uma colher de açúcar e algumas gotas de leite. Normalmente escuta a rádio enquanto come, para mitigar a solidão, mas desta vez ainda é cedo demais para isso. O relógio pendurado na parede da cozinha marca cinco horas e três minutos. Come portanto em silêncio, tentando esquecer o terrível pesadelo que o levou a acordar antes da hora. Apenas termina a refeição, lava a loiça rapidamente, e prepara-se para tomar o seu banho matinal.
Liga o chuveiro e a água quente começa a correr. Lentamente o vapor embacia o espelho, tornando o seu reflexo menos nítido. Despe o seu pijama e mergulha na morna torrente de água. É uma sensação agradável, que lhe permite relachar-se durante alguns instantes. O único som audível é o da água caindo, abafando momentaneamente os pensamentos negativos.
Quando termina o seu banho, sai do chuveiro e seca-se com uma toalha vermelha. O espelho está embaciado mas ainda assim consegue ver o seu reflexo, embora pouco nítido. O seu corpo nu e flácido fá-lo recordar uma vez mais, para o seu pesar, o pesadelo que o despertou essa madrugada. O seu próprio corpo envelhecido e destapado fê-lo recordar o corpo do amigo, primeiro coberto de suor e depois de sangue.
Incomodado, Roy tapa o seu corpo com a toalha vermelha e dirigi-se ao seu dormitório, onde se veste para sair de casa. A sua indumentária é simples e austera, sem deixar de ser elegante. Calças pretas, camisa aos quadros, cinzentos e azuis, blusa de lã cinzenta, e por cima uma longa gabardine de um cinzento escuro, quase preto.
O dormitório de Roy está localizado no segundo andar da casa. Desce as escadas até ao primeiro andar e prepara-se para sair. Lá fora, ainda é noite, embora esteja quase a amanhecer. O relógio no pulso de Roy revela que são seis horas e trinta e dois minutos.
Como todas as manhãs, Roy sai de casa cedo, disposto a realizar a sua caminhada matinal. Nesta altura do ano, em pleno Inverno, o Sol não se aventura todavia a mostrar-se aos ingleses, e o ar gelado contorna as vestimentas mais calorosas de forma a fazer gelar os corpos dos viandantes. Ainda assim, Roy Spencer não desiste de fazer a sua caminhada, e enfrenta o frio da manhã londrina de forma estóica, como se esperaria de um verdadeiro Inglês.
Na verdade nesta manhã especificamente, o frio, embora intenso,não chega a incomodar realmente o velho Roy Spencer. De certa forma, o ar gelado que invade os seus pulmões cada vez que inspira contribui para tornar o momento mais real, afastando-o do mundo dos sonhos que o persegue todavia. A cada passo Roy procura sacudir a visão do seu amigo, nu, sentado naquela cadeira naquela sala sombria, coberto de sangue. Procura esquecer aquele olhar aterrorizador, penetrante. Procura esquecer as palavras por ele proferidas,enigmáticas. Mas não consegue, apesar dos seus esforços, afastar tais pensamentos da sua mente. ‘Deves fazê-lo’ vaticinou o fantasma. ‘Mas fazer o quê?’, pensava Roy, contra a sua vontade.
Como de costume, Roy compra o jornal e propoem-se a lê-lo no café que frequenta habitualmente pelas manhãs.
- Um “caffe latte” por favor.
- Como sempre... Está tudo bem Roy? Parece um pouco cansado esta manhã. – A jovem atrás do balcão, uma atraente loira aparentando estar na casa dso trinta, servia o café a Roy quase todas as manhãs desde que trabalhava no pequeno café de Londres, há já um bom número de anos. O seu nome era Tatiana e tinha imigrado para a Inglaterra da sua Lituania natal há quase uma década atrás.
Roy apresentava, de fato, uma aparência cansada nessa manhã.
-Estou bem, obrigado... Não dormi muito bem esta noite, culpa de alguns pesadelos. Nada demais. - respondeu Roy.
- Oh... é horrível quando isso acontece. Que tipo de pesadelo? – perguntou Tatiana.
- Não me lembro exatamente... provavelmente era alguma fantasia estúpida. – mentiu Roy, que não estava interessado em contar o seu pesadelo a ninguém, e muito menos à jovem à sua frente. – Vou me sentar. –disse, dando por terminada a breve conversa.
- Oh, claro, pode se sentar e eu levarei o seu “caffe latte” à sua mesa em seguida.
Esperando pelo seu “caffe latte” , Roy folheia as páginas do “The Guardian”. A manchete do dia está dedicada ao colapso financeiro da Grécia, e as primeiras paginas tratam desse assunto assim como, de forma mais genérica, do falhanço económico da “zona Euro”.
-Bom dia velho Roy.
-Bom dia velho Steven, como te encontras hoje?
Roy reconheceu o homem em pé em frente da sua mesa de imediato. Steven Lloyd era um velho conhecido de Roy Spencer. Ambos eram velhos e conscientes disso, e costumavam provocar-se mutuamente quando se encontravam. Tal tinha se tornado uma espécie de rotina para ambos, que frequentavam o mesmo café pelas manhãs.
- A julgar pelo teu aspeto, melhor do que tu. Espero que não te importes que me sente contigo.- disse Steven, sentando-se sem grande cerimónia na mesma mesa de Roy.
- Não, esteja á vontade. Esta noite não dormi muito bem... suponho que se nota.
- Estaria a mentir se dissesse que não. Porquê, o que é que aconteceu? –perguntou Steven.
São interrompidos pela jovem Tatiana que lhes traz as bebidas.
- Um “caffe latte” para si Roy, e um “expresso” para si Steven. – diz Tatiana colocando as bebidas em cima da mesa.
- Obrigado.
-Obrigado Tatiana.
De nada. Se quiserem mais alguma coisa basta chamar.
A jovem afasta-se da mesa e volta ao balcão. Os dois homens retomam a sua conversa.
- Dizias que não dormiste bem esta noite. Qual foi a causa?
-Há dois dias atrás... um bom amigo faleceu. Desde então, não tenho conseguido dormir bem. Ontem tive um pesadelo... Sonhei com ele.
- Sinto muito. Eu conhecia-o?
- Não. Não creio. Era provavelmente o meu melhor amigo. Servimos juntos durante muitos anos. O seu nome era Edward Joyce.
- Entendo. Como é que ele morreu?... Espero que a pergunta não te incomode.
- Não... ele se suicidou.
Steven não conseguiu disfarçar o seu ar chocado. Um suicídio não é propriamente algo fora do comum, no que diz respeito a causas de morte, mas é, de alguma maneira, visto como algo ainda mais trágico do que um óbito produzido por causas naturais ou acidentes.
- Entendo... – limita-se a dizer Steven inicialmente. Alguns instantes depois, no entanto pergunta – Sabes porquê?
- Porque é que ele se suicidou?
-Uhum... – murmura Steven, confirmando o significado da pergunta.
- Não sei... mas na nossa idade...
-Já alguma vez... pensaste nisso?
- Não poderia dizer-te que nunca refleti sobre essa possibilidade. –responde Roy.
- Eu... sei que ás vezes é difícil. Mas chegar a fazer algo assim Roy... acho até que é contra a doutrina Cristã...
- A doutrina Cristã... Se tivesses visto o que eu vi ao longo da minha vida Steven... talvez acreditasses menos em Deus, em anjos, no céu... talvez acreditasses menos em todas essas coisas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Roy Spencer # 2

Ele percorre um longo corredor, à sua volta não existe senão a escuridão. Estende os braços, e sente como as suas mãos tocam as paredes, nos seus dois flancos. Continua a caminhar, lentamente, sem conhecer o seu destino,sem saber o que encontrará ao final do corredor. Escuta o ecoar dos seus passos, o ruído produzido pelo contacto entre os seus sapatos e o chão de madeira. Caminha com os braços abertos, as pontas dos seus dedos tocando a parede áspera levemente.
Mais alguns passos e eis que começa a vislumbrar uma tênue luz à sua frente. O corredor termina finalmente, desembocando numa sala ampla, pouco iluminada. Ao centro, um homem está sentado numa cadeira, de costas para Roy, que se aproxima lentamente. Roy reconhece o homem sentado na cadeira de imediato, assim que olha para o seu rosto de frente. Os seus olhos azuis, injectados de sangue, fixam Roy intensamente. Expressam uma profunda agonia, um medo que gela o sangue. A sua face, habitualmente serena, é desfigurada por uma angústia que não pode ser expressada por palavras. Os seus cabelos, brancos e parcos, colam-se à sua nuca e à sua testa, graças ao suor que todo o seu corpo exala. O homem, sentado na cadeira de madeira, está nu dos pés à cabeça. A sua nudez revela um corpo esguio e frágil, deteriorado pelos longos anos de existência. Flácido, húmido e assustado, o homem fixa Roy Spencer sem dizer uma palavra ou mover um dedo, apenas tremendo ligeiramente, talvez de frio ou simplesmente de aflição.
- Edward?... O que é que aconteceu? Qual é o significado disto?... – pergunta Roy Spencer, incapaz de entender a situação.
Inicialmente, o ancião permanece imutável, sem proferir uma palavra, ou fazer um gesto. Apenas olha para Roy fixamente, transmitindo uma angústia tremenda, durante apenas alguns segundos, que no entanto parecem durar uma eternidade para Roy. Por fim, levanta um dos braços lentamente, e aponta na direção de Roy,sem deixar de olhá-lo fixamente nos olhos. Roy repara que o homem não pisca os olhos, nem uma única vez,o que lhe confere um aspecto ainda mais aterrorizador e sobrenatural.
-Tu...- diz, apontando na direção de Roy – Deves fazê-lo.
- Fazer o quê? –pergunta Roy – Fazer o quê Edward?
-Tu... sabes. –responde Edward, ainda apontando para Roy.
-Eu... eu não sei. O que é que eu devo fazer?
-Tu sabes...
Edward abaixa o braço lentamente enquanto a expressão nos seus olhos torna-se vazia, como se a sua alma o tivesse abandonado repentinamente. Aterrorizado, Roy observa como os olhos de Edward, já antes vermelhos, adquirem uma tonalidade escarlate mais e mais intensa, até que o sangue de Edward começa a brotar das suas cavidades oculares em um primeiro instante e, em seguida, de todos os poros do seu corpo. A figura de Edward dissipa-se então numa torrente escarlate que inunda a sala e sufoca Roy que se vê envolto uma vez mais na mais profunda escuridão.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Roy Spencer # 1

Amigos e familiares prestam uma última homenagem a um bom homem, que já não se encontra mais entre eles. É sempre duro, quando um ente querido nos deixa, principalmente quando é para sempre. Dele não resta muito mais, apenas um corpo que se decompoem lentamente dentro do caixão em que agora se encontra. O seu espírito já partiu rumo a uma outra parte. Aqui na terra ficam aqueles que ele conheceu em vida, e que agora choram a sua perda, amparando-se mutuamente, dedicando-lhe este digno ritual funerário.
- Estamos aqui hoje reunidos para prestar uma última homenagem a Edward Joyce, pai, esposo, amigo... - dizia o padre, cabelos grisalhos empapados pela chuva que cai forte, semblante sério a condizer com a ocasião, voz grave, própria de um bom orador. - ... Eu não conheci Edward pessoalmente, mas ao olhar para os vossos rostos, e ao ver o sofrimento que transmitem, é-me evidente que foi uma pessoa que marcou de forma positiva aqueles ao seu redor. Consta-me que era um pai de família, um bom cristão e que dedicou a sua vida a proteger os seus co-cidadãos. No entanto, gostaria que um de vós aqui presentes, ou inclusive mais do que um, pudésseis dizer algumas palavras a respeito deste homem,que conheceis certamente melhor do que eu que nunca o conheci enquanto era vivo.
É então que a viúva toma a palavra. Está vestida de negro dos pés à cabeça. Algumas lágrimas escorrem discretas pela sua face, camufladas entre as gotas de chuva. Aqui, diante destas pessoas, algumas mais próximas que outras, ela sente-se sozinha e vulnerável.
-Obrigado a todos vocês por estarem aqui hoje. Certamente, Edward teria ficado contente por tantas pessoas queridas terem decidido vir despedir-se dele, nesta última e derradeira oportunidade... – A voz dela treme um pouco, mas é bem audível para todos, é clara e comovente.Tanto as suas palavras, como o seu semblante e a sua postura são estóicos, como se espera de uma matrona Inglesa. Mas os seus olhos não escondem a tristeza que se apoderou do seu espírito, e a dor que sente é transmitida, sutilmente é certo, pela sua voz séria. – Eu estive casada com o Edward durante 36 anos. Passei mais anos da minha vida casada com ele do que solteira.Ter de dizer-lhe adeus, agora, e assim... é a coisa mas difícil que eu já tive que fazer na minha vida. Eu não sei porque é que ele decidiu deixar-nos desta forma, penso que nunca o saberei realmente...mas não posso dizer que me arrependo de ter feito tudo o que fiz. Sinto-me uma mulher afortunada por ter tido a oportunidade de conhecê-lo, e por ter construído uma família junto com ele. Os nossos filhos, Henry e Samantha, que estão aqui hoje, são o nosso maior legado. Eu estou orgulhosa deles e sei que o James também estava. Seja onde for que ele esteja agora, eu espero que ele esteja bem, e sei que algum dia iremos nos encontrar outra vez.
As palavras da viúva são comoventes. O seu discurso foi breve, mas elegante, adequado à situação. Agora é a vez do filho, que fala também em nome da irmã. As suas palavras são mais duras, menos condencendentes do que as da sua mãe. Ele não é tão compreensivo.
- Desde que eu me consigo lembrar, desde que eu tenho uso da razão, desde criança, eu sempre tive o meu pai na mais alta das considerações. Ele era, sem dúvida, um homem severo. Não obstante, ele era também um homem justo. Ou pelo menos, assim pensava. – Detém-se um momento. Repara como a sua mãe lhe lança um olhar de desaprovação. Abana também a cabeça horizontalmente, indicando-lhe que deve mudar o tom do seu discurso. Ele no entanto não obedece.
- Durante toda a sua vida, o meu pai foi um homem honrado. Como agente da Polícia, a sua conduta foi irrepreensível. Como marido, foi sempre fiel. Como chefe de família, sempre nos protegeu, educou, alimentou e vestiu.E no entanto, neste último dia,nesta despedida final, as suas últimas ações não me deixam chorar a sua morte sem mágoa. Não posso falar ante vós orgulhoso, de um homem cuja memória é imaculada. Quão bizarro e ignóbil fim ele escolheu para si mesmo. Que destino egoísta, impróprio de um homem honrado.Estas são as últimas palavras que dirijo ao meu pai. São palavras severas mas justas, tal como ele me ensinou a falar.
O discurso inflamado do jovem Edward propicia o pronto da mãe e da irmã,lembradas assim publicamente daquilo que procuravam esquecer. Daquilo que não podem entender e não conseguem realmente, na sua revolta, perdoar. Certamente os seus sentimentos são compreensíveis, como são razoáveis e normais. De entre os presentes, familiares, amigos e colegas, alguns estariam mais de acordo com o jovem Henry do que outros. Tomo por último a palavra um destes últimos, Roy Spencer, colega e amigo de Edward Joyce.
- Quando eu e o James nos conhecemos, tínhamos ambos acabado de ingressar na Polícia. Éramos jovens e idealistas.Ambos éramos ambiciosos, e queríamos servir a sociedade,honrar a lei e preservar a ordem. Depressa nos tornamos bons amigos. – Os cabelos cinzentos indicavam uma idade avançada, assim como as rugas que marcavam o seu rosto.Alguns anos atrás certamente teria sido um rosto bonito,os seus rasgos eram elegantes, a sua face pálida, os seus olhos grandes e azuis. Mesmo apesar da idade, a sua figura era todavia imponente. Era um homem alto, de porte altivo. A sua voz era grave e firme. - Durante quase quatro décadas, eu e Edward servimos juntos a Inglaterra. Como o seu filho Henry o disse, a conduta de James foi, durante todos estes anos, tanto quanto sei, irreprensível. Nunca conheci um homem mais honesto ou corajoso. Como colega, foi exemplar. Como pessoa, não era um amigo, era um irmão. Não de sangue, mas por escolha. Estava lá quando o James conheceu a Meredith. Estava lá quando se casaram. Presenciei o nacimento do primeiro filho deles, o Henry. Vi quando James o segurou pela primeira vez nos seus braços... nunca o tinha visto tão contente antes. – disse, olhando para Henry, que não resistiu a desviar o olhar. – Também estava presente quando a sua filha nasceu, a Samantha.- olhou desta feita para ela, que mais uma vez deixava cair algumas lágrimas. – Não havia nada para James mais importante do que a família, e eu sei que ele estava orgulhoso dos seus filhos, e que amava a sua mulher.Quando eu recebi a notícia da sua morte, fiquei surpreendido sim, e confuso também... e entendo que as suas ações possam ter causado tristeza e provocado a raiva daqueles que mais o amavam. – uma vez mais fixou Henry, que desta vez continuou olhando-o nos olhos. – Mas existem certos aspetos da condição humana que só podem ser totalmente entendidos quando são vividos. Um jovem, com toda a sua vida por diante pode ter dificuldade em entender certas coisas que, para um ancião como eu, por exemplo, são perfeitamente evidentes... Quando eu deixei a polícia, há alguns anos atrás, fi-lo com satisfação. Depois de décadas de serviço, em que presenciei coisas horríveis, em que investiguei os crimes mais hediondos, que me fizeram contemplar a parte mais sombria do espírito humano, a idéia de deixar tudo isso para trás e viver uma vida calma e feliz era extremamente atraente. E de fato, as minhas primeiras semanas depois de deixar a polícia foram boas. E no entanto, à medida que o tempo foi passando, fui me deparando com uma outra realidade.Quanto mais tempo passava, maior a dificuldade para ocupar os meus dias. Percebi então que aquilo que dava realmente sentido à minha vida era a minha profissão. Tornou-se então claro para mim que todas aquelas décadas eu tinha existido para servir a lei e a justiça. Após algum tempo, a sensação de inutilidade que me invadia era tão forte que alguns dias praticamente não tinha vontade de sair da cama. Suspeito que James passou pela mesma coisa... Gostaria de ter ajudá-lo antes, estar mais presente, partilhar com ele esta carga, mas agora é tarde demais. Depois de uma certa idade, cada dia que passa sentimos a morte que se aproxima. E, como sinais da desgraça eminente, vemos como o nosso corpo, e até mesmo a nossa mente, vão perdendo, lenta mas inexoravelmente, o fulgor de outrora. Eu sei como é duro envelhecer e deixar a minha profissão, e como tal entendo como ele se devia sentir. Não quero desculpá-lo, pois não creio que seja necessário.Todos os homens são livres de decidir como querem viver e morrer na minha opinião. Mas como seu melhor amigo, e alguém que o compreendia, me senti na obrigação de tentar explicar as suas últimas ações, assim como louvar as anteriores. Adeus velho amigo, descansa em paz.
Seguiu-se um breve silêncio, após o qual o funeral prosseguiu. Finalmente, o caixão foi engolido pela terra molhada, onde residiria para todo o sempre. Os familiares e amigos presentes começaram a ir embora, após despedir-se uma última vez de James Joyce, marido, pai, amigo...
Antes de partir, Roy Spencer achou por bem despedir-se da viúva Meredith Joyce, que estava acompanhada pelos seus dois filhos, e que recebia os últimos pesames de algumas outras pessoas, também elas prestes a ir embora.
- Sinto muito Meredith. – disse simplesmente, quando finalmente pôde obter alguma privacidade.-olhou então primeiro para a filha e depois para o filho, Henry, mas não disse nada, apenas moveu ligeiramente a cabeça para a frente, um gesto consolador.
- Bonito discurso.- disse Henry. O tom de voz não era abertamente irónico, mas os seus olhos refletiam uma certa raiva, dirigida ou ao seu defunto pai ou talvez mesmo a Roy.
Roy não respondeu, mas quem falou foi a Meredith.
- Obrigado pela tua presença Roy, e pelas tuas palavras. Sempre foste um bom amigo.
Roy teve a impressão que ela não era completamente sincera. As suas palavras eram gentis, mas o seu olhar duro e a sua expressão grave. De todas formas, aqueles eram momentos difíceis para ela, mais do que para qualquer outro. Roy lembrava-se de como se tinha sentido quando a sua mulher tinha morrido apenas alguns anos antes. Ele conhecia aquela sensação, de estar só no mundo, chamado a enfrentar o fim sozinho. Uma vez mais prestou os seus pêsames, depediu-se e afastou-se, lentamente,caminhando sob a chuva pesada e o céu cinzento de Londres, rumo à sua solitária morada em Kensington.