quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Roy Spencer # 3

Roy Spencer desperta repentina e bruscamente, dando por si prostrado no seu leito matrimonial onde dorme sozinho todas as noites, desde que a sua mulher faleceu há alguns anos atrás. Durante alguns segundos, sente uma franca dificuldade em respirar. Sem dúvida, tratou-se apenas de um pesadelo, algo a que Roy está certamente habituado.No entanto, existem diferentes tipos de pesadelo. Alguns são rápidos e muitas vezes nem nos lembramos deles quando acordamos. Outros, chegam a ser tão intensos que parecem verdadeiros,como se acontecessem realmente. O pesadelo que havia apenas despertado Roy pertencia sem dúvida à segunda classe descrita. Ainda com o pulso acelerado, e com uma ou outra gota de suor a escorrer-lhe pela face, Roy olha para o relógio na sua mesa de cabeceira. São quatro e meia da manhã, mais precisamente quatro horas e trinta e seis minutos.
Incapaz de voltar a adormecer, Roy decide levantar-se e começar o seu dia. No exterior, as ruas de Londres estão ainda desertas e permanecem cobertas pelo manto da noite.
Como todas as manhãs, Roy senta-se sozinho na sua cozinha e consome a primeira refeição do dia: torradas com marmelada de laranja e uma chávena de chá com uma colher de açúcar e algumas gotas de leite. Normalmente escuta a rádio enquanto come, para mitigar a solidão, mas desta vez ainda é cedo demais para isso. O relógio pendurado na parede da cozinha marca cinco horas e três minutos. Come portanto em silêncio, tentando esquecer o terrível pesadelo que o levou a acordar antes da hora. Apenas termina a refeição, lava a loiça rapidamente, e prepara-se para tomar o seu banho matinal.
Liga o chuveiro e a água quente começa a correr. Lentamente o vapor embacia o espelho, tornando o seu reflexo menos nítido. Despe o seu pijama e mergulha na morna torrente de água. É uma sensação agradável, que lhe permite relachar-se durante alguns instantes. O único som audível é o da água caindo, abafando momentaneamente os pensamentos negativos.
Quando termina o seu banho, sai do chuveiro e seca-se com uma toalha vermelha. O espelho está embaciado mas ainda assim consegue ver o seu reflexo, embora pouco nítido. O seu corpo nu e flácido fá-lo recordar uma vez mais, para o seu pesar, o pesadelo que o despertou essa madrugada. O seu próprio corpo envelhecido e destapado fê-lo recordar o corpo do amigo, primeiro coberto de suor e depois de sangue.
Incomodado, Roy tapa o seu corpo com a toalha vermelha e dirigi-se ao seu dormitório, onde se veste para sair de casa. A sua indumentária é simples e austera, sem deixar de ser elegante. Calças pretas, camisa aos quadros, cinzentos e azuis, blusa de lã cinzenta, e por cima uma longa gabardine de um cinzento escuro, quase preto.
O dormitório de Roy está localizado no segundo andar da casa. Desce as escadas até ao primeiro andar e prepara-se para sair. Lá fora, ainda é noite, embora esteja quase a amanhecer. O relógio no pulso de Roy revela que são seis horas e trinta e dois minutos.
Como todas as manhãs, Roy sai de casa cedo, disposto a realizar a sua caminhada matinal. Nesta altura do ano, em pleno Inverno, o Sol não se aventura todavia a mostrar-se aos ingleses, e o ar gelado contorna as vestimentas mais calorosas de forma a fazer gelar os corpos dos viandantes. Ainda assim, Roy Spencer não desiste de fazer a sua caminhada, e enfrenta o frio da manhã londrina de forma estóica, como se esperaria de um verdadeiro Inglês.
Na verdade nesta manhã especificamente, o frio, embora intenso,não chega a incomodar realmente o velho Roy Spencer. De certa forma, o ar gelado que invade os seus pulmões cada vez que inspira contribui para tornar o momento mais real, afastando-o do mundo dos sonhos que o persegue todavia. A cada passo Roy procura sacudir a visão do seu amigo, nu, sentado naquela cadeira naquela sala sombria, coberto de sangue. Procura esquecer aquele olhar aterrorizador, penetrante. Procura esquecer as palavras por ele proferidas,enigmáticas. Mas não consegue, apesar dos seus esforços, afastar tais pensamentos da sua mente. ‘Deves fazê-lo’ vaticinou o fantasma. ‘Mas fazer o quê?’, pensava Roy, contra a sua vontade.
Como de costume, Roy compra o jornal e propoem-se a lê-lo no café que frequenta habitualmente pelas manhãs.
- Um “caffe latte” por favor.
- Como sempre... Está tudo bem Roy? Parece um pouco cansado esta manhã. – A jovem atrás do balcão, uma atraente loira aparentando estar na casa dso trinta, servia o café a Roy quase todas as manhãs desde que trabalhava no pequeno café de Londres, há já um bom número de anos. O seu nome era Tatiana e tinha imigrado para a Inglaterra da sua Lituania natal há quase uma década atrás.
Roy apresentava, de fato, uma aparência cansada nessa manhã.
-Estou bem, obrigado... Não dormi muito bem esta noite, culpa de alguns pesadelos. Nada demais. - respondeu Roy.
- Oh... é horrível quando isso acontece. Que tipo de pesadelo? – perguntou Tatiana.
- Não me lembro exatamente... provavelmente era alguma fantasia estúpida. – mentiu Roy, que não estava interessado em contar o seu pesadelo a ninguém, e muito menos à jovem à sua frente. – Vou me sentar. –disse, dando por terminada a breve conversa.
- Oh, claro, pode se sentar e eu levarei o seu “caffe latte” à sua mesa em seguida.
Esperando pelo seu “caffe latte” , Roy folheia as páginas do “The Guardian”. A manchete do dia está dedicada ao colapso financeiro da Grécia, e as primeiras paginas tratam desse assunto assim como, de forma mais genérica, do falhanço económico da “zona Euro”.
-Bom dia velho Roy.
-Bom dia velho Steven, como te encontras hoje?
Roy reconheceu o homem em pé em frente da sua mesa de imediato. Steven Lloyd era um velho conhecido de Roy Spencer. Ambos eram velhos e conscientes disso, e costumavam provocar-se mutuamente quando se encontravam. Tal tinha se tornado uma espécie de rotina para ambos, que frequentavam o mesmo café pelas manhãs.
- A julgar pelo teu aspeto, melhor do que tu. Espero que não te importes que me sente contigo.- disse Steven, sentando-se sem grande cerimónia na mesma mesa de Roy.
- Não, esteja á vontade. Esta noite não dormi muito bem... suponho que se nota.
- Estaria a mentir se dissesse que não. Porquê, o que é que aconteceu? –perguntou Steven.
São interrompidos pela jovem Tatiana que lhes traz as bebidas.
- Um “caffe latte” para si Roy, e um “expresso” para si Steven. – diz Tatiana colocando as bebidas em cima da mesa.
- Obrigado.
-Obrigado Tatiana.
De nada. Se quiserem mais alguma coisa basta chamar.
A jovem afasta-se da mesa e volta ao balcão. Os dois homens retomam a sua conversa.
- Dizias que não dormiste bem esta noite. Qual foi a causa?
-Há dois dias atrás... um bom amigo faleceu. Desde então, não tenho conseguido dormir bem. Ontem tive um pesadelo... Sonhei com ele.
- Sinto muito. Eu conhecia-o?
- Não. Não creio. Era provavelmente o meu melhor amigo. Servimos juntos durante muitos anos. O seu nome era Edward Joyce.
- Entendo. Como é que ele morreu?... Espero que a pergunta não te incomode.
- Não... ele se suicidou.
Steven não conseguiu disfarçar o seu ar chocado. Um suicídio não é propriamente algo fora do comum, no que diz respeito a causas de morte, mas é, de alguma maneira, visto como algo ainda mais trágico do que um óbito produzido por causas naturais ou acidentes.
- Entendo... – limita-se a dizer Steven inicialmente. Alguns instantes depois, no entanto pergunta – Sabes porquê?
- Porque é que ele se suicidou?
-Uhum... – murmura Steven, confirmando o significado da pergunta.
- Não sei... mas na nossa idade...
-Já alguma vez... pensaste nisso?
- Não poderia dizer-te que nunca refleti sobre essa possibilidade. –responde Roy.
- Eu... sei que ás vezes é difícil. Mas chegar a fazer algo assim Roy... acho até que é contra a doutrina Cristã...
- A doutrina Cristã... Se tivesses visto o que eu vi ao longo da minha vida Steven... talvez acreditasses menos em Deus, em anjos, no céu... talvez acreditasses menos em todas essas coisas.

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