sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Roy Spencer # 1

Amigos e familiares prestam uma última homenagem a um bom homem, que já não se encontra mais entre eles. É sempre duro, quando um ente querido nos deixa, principalmente quando é para sempre. Dele não resta muito mais, apenas um corpo que se decompoem lentamente dentro do caixão em que agora se encontra. O seu espírito já partiu rumo a uma outra parte. Aqui na terra ficam aqueles que ele conheceu em vida, e que agora choram a sua perda, amparando-se mutuamente, dedicando-lhe este digno ritual funerário.
- Estamos aqui hoje reunidos para prestar uma última homenagem a Edward Joyce, pai, esposo, amigo... - dizia o padre, cabelos grisalhos empapados pela chuva que cai forte, semblante sério a condizer com a ocasião, voz grave, própria de um bom orador. - ... Eu não conheci Edward pessoalmente, mas ao olhar para os vossos rostos, e ao ver o sofrimento que transmitem, é-me evidente que foi uma pessoa que marcou de forma positiva aqueles ao seu redor. Consta-me que era um pai de família, um bom cristão e que dedicou a sua vida a proteger os seus co-cidadãos. No entanto, gostaria que um de vós aqui presentes, ou inclusive mais do que um, pudésseis dizer algumas palavras a respeito deste homem,que conheceis certamente melhor do que eu que nunca o conheci enquanto era vivo.
É então que a viúva toma a palavra. Está vestida de negro dos pés à cabeça. Algumas lágrimas escorrem discretas pela sua face, camufladas entre as gotas de chuva. Aqui, diante destas pessoas, algumas mais próximas que outras, ela sente-se sozinha e vulnerável.
-Obrigado a todos vocês por estarem aqui hoje. Certamente, Edward teria ficado contente por tantas pessoas queridas terem decidido vir despedir-se dele, nesta última e derradeira oportunidade... – A voz dela treme um pouco, mas é bem audível para todos, é clara e comovente.Tanto as suas palavras, como o seu semblante e a sua postura são estóicos, como se espera de uma matrona Inglesa. Mas os seus olhos não escondem a tristeza que se apoderou do seu espírito, e a dor que sente é transmitida, sutilmente é certo, pela sua voz séria. – Eu estive casada com o Edward durante 36 anos. Passei mais anos da minha vida casada com ele do que solteira.Ter de dizer-lhe adeus, agora, e assim... é a coisa mas difícil que eu já tive que fazer na minha vida. Eu não sei porque é que ele decidiu deixar-nos desta forma, penso que nunca o saberei realmente...mas não posso dizer que me arrependo de ter feito tudo o que fiz. Sinto-me uma mulher afortunada por ter tido a oportunidade de conhecê-lo, e por ter construído uma família junto com ele. Os nossos filhos, Henry e Samantha, que estão aqui hoje, são o nosso maior legado. Eu estou orgulhosa deles e sei que o James também estava. Seja onde for que ele esteja agora, eu espero que ele esteja bem, e sei que algum dia iremos nos encontrar outra vez.
As palavras da viúva são comoventes. O seu discurso foi breve, mas elegante, adequado à situação. Agora é a vez do filho, que fala também em nome da irmã. As suas palavras são mais duras, menos condencendentes do que as da sua mãe. Ele não é tão compreensivo.
- Desde que eu me consigo lembrar, desde que eu tenho uso da razão, desde criança, eu sempre tive o meu pai na mais alta das considerações. Ele era, sem dúvida, um homem severo. Não obstante, ele era também um homem justo. Ou pelo menos, assim pensava. – Detém-se um momento. Repara como a sua mãe lhe lança um olhar de desaprovação. Abana também a cabeça horizontalmente, indicando-lhe que deve mudar o tom do seu discurso. Ele no entanto não obedece.
- Durante toda a sua vida, o meu pai foi um homem honrado. Como agente da Polícia, a sua conduta foi irrepreensível. Como marido, foi sempre fiel. Como chefe de família, sempre nos protegeu, educou, alimentou e vestiu.E no entanto, neste último dia,nesta despedida final, as suas últimas ações não me deixam chorar a sua morte sem mágoa. Não posso falar ante vós orgulhoso, de um homem cuja memória é imaculada. Quão bizarro e ignóbil fim ele escolheu para si mesmo. Que destino egoísta, impróprio de um homem honrado.Estas são as últimas palavras que dirijo ao meu pai. São palavras severas mas justas, tal como ele me ensinou a falar.
O discurso inflamado do jovem Edward propicia o pronto da mãe e da irmã,lembradas assim publicamente daquilo que procuravam esquecer. Daquilo que não podem entender e não conseguem realmente, na sua revolta, perdoar. Certamente os seus sentimentos são compreensíveis, como são razoáveis e normais. De entre os presentes, familiares, amigos e colegas, alguns estariam mais de acordo com o jovem Henry do que outros. Tomo por último a palavra um destes últimos, Roy Spencer, colega e amigo de Edward Joyce.
- Quando eu e o James nos conhecemos, tínhamos ambos acabado de ingressar na Polícia. Éramos jovens e idealistas.Ambos éramos ambiciosos, e queríamos servir a sociedade,honrar a lei e preservar a ordem. Depressa nos tornamos bons amigos. – Os cabelos cinzentos indicavam uma idade avançada, assim como as rugas que marcavam o seu rosto.Alguns anos atrás certamente teria sido um rosto bonito,os seus rasgos eram elegantes, a sua face pálida, os seus olhos grandes e azuis. Mesmo apesar da idade, a sua figura era todavia imponente. Era um homem alto, de porte altivo. A sua voz era grave e firme. - Durante quase quatro décadas, eu e Edward servimos juntos a Inglaterra. Como o seu filho Henry o disse, a conduta de James foi, durante todos estes anos, tanto quanto sei, irreprensível. Nunca conheci um homem mais honesto ou corajoso. Como colega, foi exemplar. Como pessoa, não era um amigo, era um irmão. Não de sangue, mas por escolha. Estava lá quando o James conheceu a Meredith. Estava lá quando se casaram. Presenciei o nacimento do primeiro filho deles, o Henry. Vi quando James o segurou pela primeira vez nos seus braços... nunca o tinha visto tão contente antes. – disse, olhando para Henry, que não resistiu a desviar o olhar. – Também estava presente quando a sua filha nasceu, a Samantha.- olhou desta feita para ela, que mais uma vez deixava cair algumas lágrimas. – Não havia nada para James mais importante do que a família, e eu sei que ele estava orgulhoso dos seus filhos, e que amava a sua mulher.Quando eu recebi a notícia da sua morte, fiquei surpreendido sim, e confuso também... e entendo que as suas ações possam ter causado tristeza e provocado a raiva daqueles que mais o amavam. – uma vez mais fixou Henry, que desta vez continuou olhando-o nos olhos. – Mas existem certos aspetos da condição humana que só podem ser totalmente entendidos quando são vividos. Um jovem, com toda a sua vida por diante pode ter dificuldade em entender certas coisas que, para um ancião como eu, por exemplo, são perfeitamente evidentes... Quando eu deixei a polícia, há alguns anos atrás, fi-lo com satisfação. Depois de décadas de serviço, em que presenciei coisas horríveis, em que investiguei os crimes mais hediondos, que me fizeram contemplar a parte mais sombria do espírito humano, a idéia de deixar tudo isso para trás e viver uma vida calma e feliz era extremamente atraente. E de fato, as minhas primeiras semanas depois de deixar a polícia foram boas. E no entanto, à medida que o tempo foi passando, fui me deparando com uma outra realidade.Quanto mais tempo passava, maior a dificuldade para ocupar os meus dias. Percebi então que aquilo que dava realmente sentido à minha vida era a minha profissão. Tornou-se então claro para mim que todas aquelas décadas eu tinha existido para servir a lei e a justiça. Após algum tempo, a sensação de inutilidade que me invadia era tão forte que alguns dias praticamente não tinha vontade de sair da cama. Suspeito que James passou pela mesma coisa... Gostaria de ter ajudá-lo antes, estar mais presente, partilhar com ele esta carga, mas agora é tarde demais. Depois de uma certa idade, cada dia que passa sentimos a morte que se aproxima. E, como sinais da desgraça eminente, vemos como o nosso corpo, e até mesmo a nossa mente, vão perdendo, lenta mas inexoravelmente, o fulgor de outrora. Eu sei como é duro envelhecer e deixar a minha profissão, e como tal entendo como ele se devia sentir. Não quero desculpá-lo, pois não creio que seja necessário.Todos os homens são livres de decidir como querem viver e morrer na minha opinião. Mas como seu melhor amigo, e alguém que o compreendia, me senti na obrigação de tentar explicar as suas últimas ações, assim como louvar as anteriores. Adeus velho amigo, descansa em paz.
Seguiu-se um breve silêncio, após o qual o funeral prosseguiu. Finalmente, o caixão foi engolido pela terra molhada, onde residiria para todo o sempre. Os familiares e amigos presentes começaram a ir embora, após despedir-se uma última vez de James Joyce, marido, pai, amigo...
Antes de partir, Roy Spencer achou por bem despedir-se da viúva Meredith Joyce, que estava acompanhada pelos seus dois filhos, e que recebia os últimos pesames de algumas outras pessoas, também elas prestes a ir embora.
- Sinto muito Meredith. – disse simplesmente, quando finalmente pôde obter alguma privacidade.-olhou então primeiro para a filha e depois para o filho, Henry, mas não disse nada, apenas moveu ligeiramente a cabeça para a frente, um gesto consolador.
- Bonito discurso.- disse Henry. O tom de voz não era abertamente irónico, mas os seus olhos refletiam uma certa raiva, dirigida ou ao seu defunto pai ou talvez mesmo a Roy.
Roy não respondeu, mas quem falou foi a Meredith.
- Obrigado pela tua presença Roy, e pelas tuas palavras. Sempre foste um bom amigo.
Roy teve a impressão que ela não era completamente sincera. As suas palavras eram gentis, mas o seu olhar duro e a sua expressão grave. De todas formas, aqueles eram momentos difíceis para ela, mais do que para qualquer outro. Roy lembrava-se de como se tinha sentido quando a sua mulher tinha morrido apenas alguns anos antes. Ele conhecia aquela sensação, de estar só no mundo, chamado a enfrentar o fim sozinho. Uma vez mais prestou os seus pêsames, depediu-se e afastou-se, lentamente,caminhando sob a chuva pesada e o céu cinzento de Londres, rumo à sua solitária morada em Kensington.

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