domingo, 19 de setembro de 2010

O Anjo Caído

Nessa altura ainda morava com os meus pais no seu apartamento em Paris, onde fui criado. Costumava passar muitas noites em branco, percorrendo as ruas parisinas durante horas e horas ao volante do meu Citroen. Ia parando em bar atrás de bar até ter bebido o bastante para entrar naquele estado em que já tudo me era indiferente, em que todas as penas desapareciam e podia sentir-me calmo, ao abrigo do efeito anestésico do álcool. Ás vezes quando finalmente regressava a casa já tinha amanhecido. Dormia até ás tantas da tarde, e nessa época já tinha deixado de ir á faculdade. Não queria falar com ninguém e, depois de muitos esforços frustrados, amigos e familiares já tinham desistido de chamar-me á razão.

Apenas um ano antes tinha tido um futuro promissor a minha frente, era um bom aluno, tinha uma namorada e um irmão mais novo ao que amava. Mas depois que o meu irmão morreu num acidente de carro, a minha vida tinha-se simplesmente convertido num inferno. Tínhamos ido visitar os nossos avós em Marselha no fim-de-semana, e na volta tivemos um acidente. Eu ia a conduzir. Eu tinha sobrevivido, o meu irmão não. Não conseguia encarar os meus pais, escutá-los dizer que não tinha sido culpa minha enquanto percebia nos seus olhares uma dor imensa e, quase imperceptível, uma acusação sutil: “tu conduzias, tu tinhas obrigação de protegê-lo, tu eras o mais velho...”

Nas minhas excursões noturnas eu frequentava regularmente alguns dos piores lugares da capital e acabei por começar a ir muito a um clube nos subúrbios. Ia lá duas ou três vezes por semana. Era um prostíbulo, um bordel, uma casa de putas. Chamava-se Kiev, provavelmente porque a maior parte das prostitutas vinham do leste de Europa. Uma dessas prostitutas era a razão que me levava a esse clube. Chamava-se Irina. Era como um anjo lascivo, provocante mas terna. Tinha cabelos doirados, pernas longas e um corpo perfeito magro e curvilíneo. Fazíamos amor e via Deus nos seus seios pequenos e redondos, afogava-me nos seus olhos azuis e confessava os meus pecados. Encontrávamo-nos com cada vez mais freqüência, o que me obrigava a pedir dinheiro aos meus pais em maiores quantidades todos os meses. Sem sequer me aperceber, tinha me apaixonado por uma prostituta.

Depois de conhecer a Irina as coisas começaram, dentro do possível, a melhorar na minha vida. É difícil explicar como apaixonar-se por uma prostituta pode melhorar a vida de alguém, mas no meu caso tinha sido, de uma certa forma, a solução aos meus problema. Não conseguia falar com os meus pais nem com os meus amigos porque me sentia demasiado perto deles. E tinha recusado a ajuda de um psiquiatra apesar da insistência dos meus pais porque não estava preparado para entregar as chaves da minha consciência a um estranho. Mas com a Irina era diferente. No começo era só sexo, mas depois de estar com ela durante algumas noites tive a sensação de que a conhecia, de que podia confiar nela. Com ela senti que podia conversar, porque sabia que ela não me ia julgar. Não podia falar com os meus pais porque sabia que no fundo eles me consideravam o culpado pelo que tinha acontecido ao meu irmão. E não podia falar com os meus amigos porque não me sentia pronto para revelar os segredos mais profundos da minha mente a pessoas que não poderiam nunca entender a minha situação. Eles nunca tinham tido que lidar com o que eu estava a lidar. Não era só a perda de um irmão mais novo. Era também o sentimento de culpa por ter sido o responsável pela morte dele, e a sensação de que os meus próprios pais me odiavam por isso. Mas com a Irina era diferente. Afinal, ela era uma puta. Quem ela era para me julgar? Não sabia exatamente a história da vida dela, mas sabia o suficiente para ter a certeza que ela sabia o significado da palavra sofrimento. E por outro lado, ela também não era pura. Éramos como duas almas manchadas, dois anjos caídos, duas existências marcadas por acontecimentos nefastos que nos tinham roubado a inocência e a alegria de viver.

Embora tivéssemos percorrido caminhos diferentes, partilhávamos essa condição trágica, de duas pessoas que tinham simplesmente perdido qualquer esperança de alcançar a felicidade nesta vida. Talvez por isso nos começamos a sentir atraídos um pelo outro. Era como se com ela eu pudesse esquecer todos os meus pesadelos, deixar para trás todos os demônios que me atormentavam, e começar de novo. Sabia que ela nunca me julgaria, porque ela também estava a tentar livrar-se dos próprios demônios. Estupidamente, comecei a acreditar que havia uma pequena possibilidade de que, juntos, pudéssemos começar uma nova vida, deixando o passado para trás e criando um novo e belo futuro.
Cada noite que passávamos juntos contribuía para que nos aproximássemos mais um do outro e ingenuamente ambos fomos enganados pela doce ilusão de um futuro melhor, talvez mesmo juntos e fora daquele lugar.

Mas eu devia ter percebido que a nossa história só poderia acabar em tragédia. Afinal, as pessoas só vivem felizes para sempre nos contos de fadas, e nós não vivemos num desses contos, mas sim na crua e dura vida real. Não demoraria muito até que a realidade me confrontasse e devorara os meus sonhos.

Eram as doze e meia da noite e conduzi o meu carro até ao clube nos subúrbios de Paris para encontrar a minha doce Irina, mas sabia que alguma coisa estava errada quando me disseram que aquela noite não podia vê-la. Perguntei-lhes se estava com outro cliente. Disseram-me que sim mas não acreditei. Vi logo nas caras deles que havia alguma coisa errada. Disseram-me que voltasse a casa ou que se quisesse podia escolher outra prostituta. “Aqui temos muitas mulheres bonitas.”. Não escutei e fui directo ao seu quarto, antes de que me pudessem impedir. Arrombei a porta e vi-a prostrada no chão, como um anjo caído e maltratado. Tinha a cara desfigurada, mal a reconhecia, mas era ela, desfigurada por uma surra que devia ter durado horas pelo aspecto que apresentava. Como era possível? Entre soluços contou-me o que tinha acontecido. O dono do clube tinha tentado violá-la, ela tinha tentado resistir, mas ele continuou a bater-lhe até ela não conseguir mais reagir.

Cegado pela ira, comecei a gritar e a exigir que me dissessem onde estava o responsável por aquela covarde agressão. Mas, como é óbvio, não só não me levaram á presença dele, como deixaram bem claro que não queriam voltar a ver-me naquele lugar. Surraram-me e expulsaram-me do prostíbulo, ensangüentado dos pés à cabeça. Com a vista nublada por sangue e lagrimas vi-a pela ultima vez, desfigurada pelo cruel espancamento. Quando já estávamos fora do bordel, o chefe saiu e veio na minha direção. Tentei alcançá-lo, mas só consegui levar mais alguns socos e pontapés dos capangas dele. Prostrado no chão olhei para cima e vi como ele olhava para mim com ar de escárnio. “Quem achas que és para criar problemas no meu bar verme? Tens sorte de sair daqui vivo. Com as minhas putas faço o que quero e tens sorte que não sejas o meu tipo se não ainda era capaz de te converter em uma delas.” Cuspiu-me na cara e deixou-me ali humilhado.

Depois que eles voltaram para dentro do prostíbulo, voltei ao meu carro e conduzi ate um descampado. Dentro do carro parado chorei, chorei ate que tivesse a certeza de que não me restavam lagrimas. Tinha sido um covarde, um maricas, um débil durante demasiado tempo, durante toda minha vida. Mas agora já não restavam lágrimas para chorar e a minha alma era negra como carvão. Soube naquele preciso instante, quando a ultima lagrima escorria pelo meu rosto que não me restava nenhuma espécie de misericórdia, estava portanto preparado para fazer o que precisava ser feito. As minhas deambulações por Paris tinham-me ensinado onde comprar drogas e a quem. Imaginei que eles soubessem onde poderia comprar armas. Perguntei-lhes quem vendia armas, eles deram-me um contacto e nessa mesma noite consegui comprar uma Beretta usada.

Conduzi até á rua onde ficava o bordel outra vez. Já eram cinco da manha. Já não chegaria mais cliente nenhum essa noite e os que permaneciam no antro não sairiam ate dentro de umas quantas horas. Uma meia hora mais tarde ele saiu do bordel. Acompanhavam-no dois dos capangas que me tinham espancado antes. Passaram em frente do meu carro, mas com a escuridão não repararam em mim. Caminharam mais alguns metros ate parar em frente a um carro, um BMW e o chulo destrancou o automóvel. Saí do carro e assobiei. Viraram-se os três. Não me reconheceram pois estava coberto pelo negro manto da noite e tinha o capucho posto. Aproximei-me até ficar a menos de um par de metros dos três indivíduos. Tirei o capucho. Disparei duas vezes a arma. Ele tentou fugir mas tropeçou num dos cadáveres. Implorou-me que não o matasse. Disse-me que estava arrependido, que era uma estupidez matar um homem por espancar uma puta. Disse-me que poderia ter todas as que eu quisesse. Que pagaria tanto quanto fosse necessário para não o matar.

“Não quero dinheiro, quero vingança. Levanta-te! Levanta-te!” Ele levantou-se e estivemos alguns segundos frente a frente separados por menos de um metro, ele era mais alto, mas era eu quem levava a pistola. Estava em piloto automático desde que tinha saído do carro. Assistia a tudo como um espectador enquanto o meu corpo atuava sozinho perpetrando a vingança que lhe havia exigido o meu espírito. Era como se eu nunca tivesse saído do carro, como se estivesse assistindo a tudo desde uns olhos que não eram os meus, uns olhos que viam tudo vermelho de sangue. Senti o frio aço da pistola na minha mão. Senti o seu peso, acariciei o gatilho, apontei para onde sabia que doeria mais e disparei. Àquela distancia teria sido impossível falhar mesmo para um cego. Senti prazer enquanto ele se retorcia no chão da rua. Mais prazer do que pensava que sentiria. Ele não voltaria a possuir nenhuma mulher. Provavelmente morreria antes de chegar a um hospital, mas eu esperava que assim não fosse, esperava que vivesse e lamentasse cada dia da sua miserável existência o dia em que me conheceu.

Regressei ao meu carro e arranquei. Não voltaria a ver a Irina nunca mais, mas aquele era o meu presente para ela, tinha feito o que ela não teria tido possibilidade de fazer. Nessa mesma madrugada deixei uma nota aos meus pais e abandonei Paris. Até hoje nunca lá voltei. Aquele episódio foi o começo de uma nova vida para mim, por isso de uma certa forma o meu sonho de começar uma nova existência materializou-se de certa forma, embora não da forma que eu tinha imaginado. Algumas vezes senti vontade de regressar àquele lugar e descobrir se ela também encontrou um novo rumo, mas até hoje não fui capaz de fazê-lo, um pouco por medo de ser descoberto e um pouco porque não sei como reagiria ao voltar a vê-la. Mas espero sinceramente que, esteja onde ela esteja, ela tenha sido capaz de começar uma nova vida. Talvez um dia o averigúe, mas aconteça o que acontecer, nunca me esquecerei daquelas noites que passei na companhia daquele aquele anjo caído quando éramos ambos reclusos no mesmo inferno terreno.

1 comentário:

  1. Excelente conto!!!

    Em termos de descrição das acções está mesmo muito bom!!

    Acho que seria porreiro se explora-se ainda mais os diálogos entre as personagens. : )

    Grande Areal continua a escrever!!

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