quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Ultimo Dia

O meu nome é Billy Summers e este é o último dia da minha vida. Estou prestes a ser assassinado num bosque a alguns quilômetros de Boston, e os encarregados de me matar são dois brutamontes que antes trabalhavam para mim, Dan Sullivan e John O’Connor.  

Caminhamos rumo ao bosque cerrado, onde ninguém vê, onde ninguém ouve,
onde é fácil fazer alguém desaparecer, alguém como eu...
- Não é nada pessoal Billy, preferiria não ter de fazer isto... Ajoelha-te.
- Não.
Golpe seco na barriga e caio ao chão sem fôlego. Estou ajoelhado, e vejo como os dois irlandeses entrecruzam olhares, de certeza que os dois estão á espera que o outro tome a iniciativa, ninguém que sujar as mãos desnecessariamente.

Finalmente, John encosta a arma na minha cabeça e após um segundo de hesitação prime o gatilho mas a pistola não dispara, provavelmente porque está travada. Não me surpreendo, porque ele sempre foi um imbecil. Dan, com quem eu costumava jogar poker nas sextas-feiras e a quem perdoei tantas vezes as dividas, afasta-o e saca a pistola para acabar comigo. Aponta ao meu peito. Vejo nos olhos dele que no fundo ele não quer fazer isto, mas sei que ele não tem escolha. Sei que o meu tempo acabou, este é o fim da linha.

De repente a minha vida toda começa a passar diante dos meus olhos, tal como dizem que acontece a uma pessoa antes de morrer. Imagino que estou protegido, envolto pelos braços da minha mãe, como se fosse um bebe. Recordo quando era um miúdo e íamos ao parque todos os fins-de-semana e brincava com os meus irmãos correndo entre as copas das árvores. Recordo quando, junto aos meus companheiros de colégio, após uma noite de verão, dormimos no bosque, olhando as estrelas no céu. Lembro-me como tantas vezes depois de sair por D.C. á noite, acabávamos no portão do nosso colégio e fazíamos concursos para ver quem agüentava mais tempo mijando no portão. Lembro-me quando conheci Cristine, a minha primeira namorada, Depois de a conhecer nao consegui falar com ela sem gaguejar durante dois meses e quando finalmente arranjei coragem perguntei se queria ir ao cinema comigo e ela aceitou. Lembor-me do nosso primeiro beijo, demorei uma hora para finalmente beija-la enquanto assistiamos a um filme de terror no cinema, e quando finalmente nos beijamos nao consegui parar de tremer porque nunca tinha estado tao nervoso na minha vida inteira.

Alguns anos depois deixei a casa dos meus pais para lançar-me á aventura, conhecer o mundo, tornar-me um homem. Primeiro cheguei a New York, onde tive vários trabalhos, depois mudei-me para Chicago, e finalmente para Boston, onde acabei por conhecer Jack Finnigan. Arranjei trabalho como barman num dos bares que ele tinha na cidade. Tinham todos o mesmo nome, Finnigan’s, mas estavam em bairros diferentes da cidade. O bar onde eu trabalhava estava localizado em South Boston, o lugar mais irlandês de Boston. Não sei porque o velho Finnigan me contratou, porque eu era o único empregado lá que não era Irlandês e de Boston. Suponho que ele tenha gostado da minha cara. Eu tinha chegado a Boston sem muito dinheiro, e estava á procura de um trabalho qualquer, tal como eu tinha feito em New York e Chicago antes. O Finnigan’s pareceu-me um bar como outro qualquer. Na altura eu não fazia idéia de que aquele velho, de cabelos brancos e expressão carrancuda, era na verdade um dos gangsters mais poderosos de Boston. O Finnigan não tratava de negócios no bar de South Boston, mas bastava dizer que eu trabalhava no bar dele e as pessoas afastavam-se logo de mim. Ele era muito conhecido em Boston, e não demorou muito até que tivesse entendido que estava, involuntariamente, a trabalhar para um dos senhores do crime de Boston. Ao princípio tive medo, porque nunca tinha tido contacto directo com o crime organizado, embora tivesse tido alguns problemas com a autoridade em Washington e New York, mas com o tempo, a idéia de trabalhar para um senhor do crime tornou-se menos assustadora e mais aliciante. Também fui conhecendo o velho Finnigan melhor, porque ele ia ao bar todos os dias, e começamos a gostar um do outro. Eu admirava-o pela sua sabedoria e poder e ele devia sentir-se atraído pela minha juventude e pelo estilo de vida nômade que eu levava. O  velho Finnigan, tanto quanto eu entendia, nunca tinha saído de Boston, e costumava interessar-se bastante pelas minhas estórias de viagens pela América.

Uma noite, estávamos quase a fechar o bar, e só lá estávamos eu e mais dois empregados. Um homem mascarado entra armado com uma pistola e diz que é um assalto. Pobre coitado, não fazia a mínima idéia de quem estava a roubar. Eu sabia que ele estava condenado desde o momento que o vi, mas mesmo assim tive medo que ele me matasse. Nessa altura eu ainda não sabia, mas os outros dois empregados estavam metidos em outros negócios bem mais ilícitos do que o bar, e ambos andavam armados. Enquanto eu abria a caixa, um deles teve tempo de sacar a pistola e disparar duas vezes, mas falhou um dos disparos e acertou no braço do ladrão da segunda vez. O ladrão, embora ferido e apanhado desprevenido, tinha melhor pontaria e acertou em cheio na testa dele, matando-o instantaneamente. O outro empregado também disparou entretanto, desta vez acertando o bandido no estomago, mas este ainda teve forças para retaliar, e meteu-lhe uma bala no estomago e outra no peito. Então ele apontou a pistola na minha direção e disparou para matar, certamente pensando que eu também estaria armado, mas eu consegui esquivar-me ao mergulhar para baixo do balcão. Ouvi como ele disparava mais três vezes enquanto caminhava na minha direção. Instintivamente agarrei numa garrafa e, alçando-me, atirei-a contra o ladrão. Acertei-lhe em cheio na cabeça e ele desmaiou. Estava inconsciente e gravemente ferido, mas não estava morto. Os meus dois companheiros sim. Pensei em telefonar para a policia mas não o fiz, não sei exatamente porquê. Em vez disso telefonei para o senhor Finnigan. Em cinco minutos tinha chegado ao bar acompanhado por outros três homens e a polícia ainda não tinha aparecido. Num quarteirão comum, se tivesse havido um tiroteio a policia teria sido avisada imediatamente, mas ali era algo relativamente comum, e toda a gente por ali sabia o tipo de gente que costumava frequentar aquele bar, o tipo de gente do qual convém manter-se afastado. Por isso não só a policia não chegou logo, como só veio quando nós os chamamos, uns vinte minutos depois. Quando Finnigan viu o ladrão disse a um dos seus homens para tirar-lhe a mascara e para o acordar e disse a outro para buscar a pistola de Brad, um dos empregados mortos. Depois disso mandou-me pegar na pistola, o qual eu recusei ao principio, mas depois dele insistir acabei por o fazer. “Dispara-lhe duas vezes no peito,” disse-me. Não sabia como reagir. “Não sou um assassino, respondi”. “É em auto-defesa,” disse-me o velho Finnigan, “ele merece-o.”
O ladrão tinha sido reanimado ás bofetadas por um dos homens de Finnigan, mas depois do choque e da quantidade de sangue que tinha perdido, parecia mais um cadáver do que uma pessoa viva. “Sabes de quem é este bar?”, perguntou Finnigan ao ladrão, mas ele não conseguiu dizer mais do que “Desculpa” antes de cuspir uma quantidade impressionante de sangue e começar a chorar e a implorar para que não o matassem. Era mais jovem do que eu, não devendo ter mais de vinte anos. Era branco e tinha cabelos curtos e loiros. Estava apavorado. Finnigan voltou a dirigir-se a mim, “Lamento que isto tenha acontecido Billy, mas agora já não há volta atrás. Pega na pistola.” Soube então que se não o fizesse provavelmente eu também não passaria daquela noite. Peguei na pistola e disparei.

Naquele dia a minha vida mudou para sempre. O senhor Finnigan tinha razão quando disse que não havia mais volta atrás. Depois desse dia, estava “dentro”, era um gangster. Continuei a trabalhar no bar durante algum tempo, mas agora de vez em quando a minha presença era requerida em outro tipo de “trabalhos”. A minha subida de barman a braço direito do senhor Finnigan foi tão acelerada que surpreendeu a todos, especialmente a mim. O negócio central da organização era o tráfico de drogas, mas também havia o contrabando de armas, clubes de prostituição, “proteção” de lojas e restaurantes, jogo e os negócios legítimos como bares e negócios imobiliários. Era um Império que eu cheguei a conhecer melhor do que quase ninguém, excepto o próprio Finnigan e um par de veteranos.        

Antes de chegar a Boston era um Zé ninguém, mas graças ao senhor Finnigan converti-me num príncipe da cidade. Em South Boston todos sabiam quem eu era. Não tinha que fazer reservas para comer em restaurantes, e sempre me davam a s melhores mesas; não tinha que fazer fila como as outras pessoas para comprar o pão na padaria ou enviar uma carta nos correios; quando ia a um bar, as bebidas eram sempre por conta da casa. Era temido e respeitado, e ninguém me podia tocar. O senhor Finnigan foi me dando mais e mais responsabilidades e poder dentro da organização. Ele não tinha nenhum filho, e pode-se dizer que de certa forma ele me adoptou. Mas no fundo eu nunca cheguei a ser um verdadeiro gangster, um homem de ferro, um durão. Falhei no teste quando o FBI me encurralou, entre uma vida de glória na prisão e uma vida de cobarde em liberdade acabei por escolher a segunda. Não sei como ele descobriu que eu estava a falar com o FBI, mas agora já não importa.

Ouço o estrondo que faz a pistola quando é disparada, sinto como a bala atinge o meu peito e deixo de respirar, perco a consciência, sentindo o frio de uma manhã de outono pela ultima vez.

Vejo uma grávida incrivelmente bela e desejo que todas as mulheres do mundo engravidem, e nado no seu interior alimentado pela placenta e ansioso por
voltar a nascer. Mas acomodo-me e percebo como sou feliz sem preocupar-me
por nada, alimentando-me ao comer o que ela come, plácido e contente no
morno envoltório redondo, sem olhos para ver nem ouvidos para ouvir mas
sabendo que sou amado. Já não distingo as cores nem as vozes nem posso apreciar como o tempo passa porque a existência já não me pertence, tudo o que passou já não me diz respeito.

Num ultimo pensamento lamento que os meus pais tenham que enterrar um filho sem corpo. Nunca saberão a verdade.  Sou um soldado desconhecido, sou um filho desaparecido, sou a realeza assassinada, sou uma memória infame, sou um nome que já ninguém pronuncia, sou um traidor.. não sou nada.

Sem comentários:

Enviar um comentário