sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Roy Spencer # 2

Ele percorre um longo corredor, à sua volta não existe senão a escuridão. Estende os braços, e sente como as suas mãos tocam as paredes, nos seus dois flancos. Continua a caminhar, lentamente, sem conhecer o seu destino,sem saber o que encontrará ao final do corredor. Escuta o ecoar dos seus passos, o ruído produzido pelo contacto entre os seus sapatos e o chão de madeira. Caminha com os braços abertos, as pontas dos seus dedos tocando a parede áspera levemente.
Mais alguns passos e eis que começa a vislumbrar uma tênue luz à sua frente. O corredor termina finalmente, desembocando numa sala ampla, pouco iluminada. Ao centro, um homem está sentado numa cadeira, de costas para Roy, que se aproxima lentamente. Roy reconhece o homem sentado na cadeira de imediato, assim que olha para o seu rosto de frente. Os seus olhos azuis, injectados de sangue, fixam Roy intensamente. Expressam uma profunda agonia, um medo que gela o sangue. A sua face, habitualmente serena, é desfigurada por uma angústia que não pode ser expressada por palavras. Os seus cabelos, brancos e parcos, colam-se à sua nuca e à sua testa, graças ao suor que todo o seu corpo exala. O homem, sentado na cadeira de madeira, está nu dos pés à cabeça. A sua nudez revela um corpo esguio e frágil, deteriorado pelos longos anos de existência. Flácido, húmido e assustado, o homem fixa Roy Spencer sem dizer uma palavra ou mover um dedo, apenas tremendo ligeiramente, talvez de frio ou simplesmente de aflição.
- Edward?... O que é que aconteceu? Qual é o significado disto?... – pergunta Roy Spencer, incapaz de entender a situação.
Inicialmente, o ancião permanece imutável, sem proferir uma palavra, ou fazer um gesto. Apenas olha para Roy fixamente, transmitindo uma angústia tremenda, durante apenas alguns segundos, que no entanto parecem durar uma eternidade para Roy. Por fim, levanta um dos braços lentamente, e aponta na direção de Roy,sem deixar de olhá-lo fixamente nos olhos. Roy repara que o homem não pisca os olhos, nem uma única vez,o que lhe confere um aspecto ainda mais aterrorizador e sobrenatural.
-Tu...- diz, apontando na direção de Roy – Deves fazê-lo.
- Fazer o quê? –pergunta Roy – Fazer o quê Edward?
-Tu... sabes. –responde Edward, ainda apontando para Roy.
-Eu... eu não sei. O que é que eu devo fazer?
-Tu sabes...
Edward abaixa o braço lentamente enquanto a expressão nos seus olhos torna-se vazia, como se a sua alma o tivesse abandonado repentinamente. Aterrorizado, Roy observa como os olhos de Edward, já antes vermelhos, adquirem uma tonalidade escarlate mais e mais intensa, até que o sangue de Edward começa a brotar das suas cavidades oculares em um primeiro instante e, em seguida, de todos os poros do seu corpo. A figura de Edward dissipa-se então numa torrente escarlate que inunda a sala e sufoca Roy que se vê envolto uma vez mais na mais profunda escuridão.

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