quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Roy Spencer # 4

Roy toca a campainha. Alguns instantes mais tarde, a porta abre-se à sua frente. A sua filha, Dora, cumprimenta-o com um beijo na bochecha esquerda.
- Entra pai. Como estás?
- Estou bem, obrigado. E tu?
- Tudo bem. Como sempre. Eu e o Jack trabalhamos bastante e raramente temos tempo para nós próprios, a Sarah costuma se sair bastante bem na escola, e o William um pouco menos...
Dora e Jack haviam se conhecido há mais de duas décadas atrás quando ambos eram estudantes na Universidade de Leeds. Jack estudava engenheria então, e Dora estudava Francês e Espanhol. Quando terminaram a faculdade mudaram-se para Londres, a cidade natal de Dora, onde Jack arranjou trabalho como engenheiro e Dora como professora. Há quinze anos atrás tiveram a Sarah e três anos depois o William. A família morava numa comfortável casa de dois andares e quatro quartos no bairro londrino de Kew Gardens, adquirida pouco depois do nascimento de William. Cerca de uma vez por semana, Roy visitava a residência da jovem família. O costume tinha originado alguns anos atrás, pouco depois do falecimento de Laura Spencer, a mulher de Roy e a mãe de Dora.
- Olá Roy, está tudo bem consigo? – perguntou Jack, o marido de Dora, enquanto o cumprimentava com um aperto de mão.Jack tinha quarenta e poucos anos. Era alto, magro e tinha cabelos loiros. Era um tipo simpático, e a relação entre ambos era cordial.
- Está tudo bem, obrigado. Onde estão as crianças? – disse Roy.
- Estão lá em cima, mas no seu lugar eu não os chamaria de crianças. Acho que agora temos de chamá-los de adolescentes. Principalmente a Sarah, ela tem quinze anos e acha que já é uma mulher crescida. –disse a filha de Roy, Dora.
- De acordo com o que eu me lembro, t não eras muito diferente quando tinhas a sua idade.-disse Roy Spencer.
No mesmo instante, Sarah e William desciam as escadas e se juntavam a Roy, Dora e Jack no hall de entrada.
- Aham! Finalmente alguém que me defende. Obrigado avô. –disse a jovem Sarah abraçando-o e dando-lhe um beijo.
- Haha, o teu avô estará sempre aqui para te defender. E tu Will,não me dás um abraço?
O pequeno Will, de cabelos castanhos claros e olhos verdes, deu então um caloroso abraço ao seu avô. Roy Spencer amava os seus dois netos mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, inclusive a sua filha Dora. Mas entre os dois, secretamente havia escolhido Will como o seu favorito. O sentimento era recíproco. William, que há um ano e pouco atrás tinha começado a interessar-se progressivamente por histórias de detectives e super-heróis, via o seu avô, um condecorado ex-detective como um herói.
- E então, pequeno Will, a tua mãe diz-me que as tuas notas não têm sido muito altas.
- Nem muito altas nem muito baixas. É difícil competir com a Sarah, ela tem sempre a nota mais alta em quase tudo.
- Se passasses a metade to tempo que passas lendo comics estudando também serias o melhor aluno da tua turma. – disse Dora.
- Certo. O problema é que os livros de matemática e ciência não são propriamente tão interessantes quanto as histórias do Batman ou do Homem-Aranha. – retorquiu William, motivando uma gargalhada geral. Até Dora não conseguiu deixar de sorrir perante a resposta astuta do pequeno William.
A família reunida disfruta do jantar preparado por Dora. A ementa é simples e tipicamente inglesa: jacket potatoes filled with chili con carne e salada como acompanhamento. Os adultos acompanham a refeição com uma garrafa de Chianti, as crianças (ou adolescentes, como certamente prefeririam ser designados) têm que se contentar com uma garrafa de Fanta de laranja. Como é habitual na velha Inglaterra, o jantar é servido cedo, por volta das sete horas.
Após o jantar, Sarah, Jack e William retomanos seus afazeres.Enquanto isso, Dora troca algumas palavras com o seu pai, antes de despedir-se dele.
- Sinto muito por não termos ido ao funeral do Edward pai... Eu e o Jack estamos sempre muito atarefados com os nossos respectivos trabalhos, e as crianças têm a escola... – desculpou-se Dora.
- Eu entendo... –disse Roy sem grande convicção.-Sabes que ele gostava de ti como se fosses a sua sobrinha de verdade...
- Eu sei...-respondeu Dora, num tom de culpa – Eu nem acredito que ele... A Meredith deve estar devastada. E o Henry e a Samantha também.
- Falaste com algum deles? –perguntou Roy.
- Não... ainda não. Não tive coragem. Mas vou telefonar. Como é que eles estão?
- Algo abalados. Mas sobreviverão. Como nós sobrevivemos...
- E tu? Como te sentes? Eu sei que ele era como um irmão para ti.
- Eu... também sobreviverei.
- Pai... sabes que se quisesses poderias vir morar conosco. Temos espaço, e assim passarias mais tempo comigo e com os teus netos. Tenho medo que te sintas demasiado sozinho naquela casa.
- Obrigado Dora, mas aquela é a minha casa. Não te preocupes comigo. Eu estou bem. Obrigado pelo jantar.
Roy despede-se da filha dando-lhe um beijo na testa, e mergulha de novo na fria noite londrina.

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