- É aqui? – perguntou o taxista, com um forte sotaque oriental, a condizer com os seus rasgos faciais que levavam a pensar que provinha algures do sub-continente indiano.
- Sim. É aqui.- respondeu Roy Spencer, reconhecendo a casa de campo da família Joyce, mesmo apesar da densa camada de chuva que caía sobre a noite Inglesa, e embaciava as janelas do táxi.
A revelação da noite anterior havia abalado Roy Spencer seriamente. Por um lado, sentia-se traído pelo seu melhor amigo. Durante todos aqueles anos tinha visto em Edward Joyce um modelo de virtude. Um verdadeiro exemplo, tanto como pai de família como agente da lei. Agora, no entanto, era obrigado a aceitar o fato que Edward tinha se deixado corromper. Que, em algum momento, ele tinha deixado de ser o valoroso Edward que Roy havia conhecido tantos anos atrás na academia de polícia. Por outro lado, se Edward tinha sido de fato assassinado, era o seu dever como amigo vingar a sua morte. Uma missão que Roy Spencer, agora um ancião, não se sentia inteiramente capaz de levar a cabo.
De qualquer forma, Roy sentia-se na obrigação de investigar a morte do seu velho amigo. Havia dado a sua palavra a Meredith, e mesmo que não o tivesse feito, a sua amizade com Edward constrangia-o a tal. Por isso, ao final da tarde, após refletir cuidadosamente sobre o caso,chamou um taxi e rumou em direção à casa de campo de Edward e Meredith Joyce em Surrey.
Edward tinha sido encontrado morto na sua casa de campo, com uma bala na cabeça. Quando foi descoberto, o seu corpo jazia no solo de madeira da ampla sala de estar. Segurava a pistola que havia realizado o disparo mortal. Uma ampla poça de sangue regava o chão à sua volta. Tinha sido o seu filho Henry a encontrar o corpo e a chamar a polícia. Antes de suicidar-se, Edward tinha escrito uma carta. A versão original tinha sido requisitada pela polícia como prova, mas Meredith tinha recebido uma cópia, que havia mostrado a Roy:
Queridos familiares e amigos,
É com uma certa tristeza que vos escrevo esta derradeira carta. São estas as minhas últimas palavras, e espero que não vos provoquem demasiada tristeza. São palavras de despedida. A última despedida. Quando leiais esta carta, o fareis certamente com o conhecimento que não me encontro mais entre vós. Pela dor provocada por este meu último ato, vos peço sinceras desculpas. A minha decisão, no entanto, já está tomada. Espero que possais perdoar-me, sabendo as razões que me levaram a tal ato.
Por mais que vos ame, Meredith, Henry e Samantha, não consigo afastar a sensação que os meus melhores dias já passaram. Todos os dias acordo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, começarei a perder a razão, até que um dia não serei mais eu próprio. Todas as manhãs desperto com a consciência de que, a cada dia que passa, mais débil o meu corpo se torna, até que, uma manhã qualquer, não serei capaz de me levantar da cama sem ajuda. Cada vez que olho no espelho estou mais velho e cansado e nada que eu faça poderá alterar essa tendência. Como todas as criaturas vivas dotadas de consciência, tenho medo da morte. No entanto, quanto mais me aproximo dela, menos ameaçadora se torna. Por outro lado, é a velhice que me apavora. Não a velhice de agora, mas a velhice do futuro. Não consigo suportar a idéia de que um dia não poderei mais caminhar sem a ajuda de alguém ou, pior ainda, que não serei o mesmo, que até mesmo as minhas faculdades mentais pouco a pouco irão se mermando. Este é um medo que me consome, dia a dia, e ao qual não consigo já resistir. Convido portanto a morte a levar-me agora, enquanto conservo a minha dignidade.
À minha mulher Meredith e aos meus filhos, amo-vos de todo o coração. Aos meus bons amigos, agradeço-vos pelos bons momentos partilhados ao longo de muitos anos.
Edward Joyce
Meredith havia confirmado que a letra era a de Edward. Quanto a isso não havia dúvida, tinha sido ele a escrever a carta. Ou ele, ou alguém capaz de copiar a sua letra.
A carta de despedida era comovente e os sentimentos nela expressos não eram alheios à forma como o próprio Roy encarava este derradeiro período da sua vida. O motivo do suicídio era portanto, à partida, plenamente credível. Não fosse pela revelação de Meredith na noite anterior, que certamente criava certas suspeitas respeito ao momento escolhido por Edward para se suicidar. Por outro lado,não havia alguma referência ao caso de corrupção na carta de Edward. Se realmente ele se sentia tão culpado, certamente esse poderia ser um forte motivo para o suicídio. Ou, no mínimo, Edward teria feito alguma alusão ao caso na sua carta de despedida. É certo que talvez Edward tivesse escolhido não referir o assunto temendo que a carta fosse lida pelas pessoas erradas, mas mesmo que assim fosse, uma sutil referência ao seu sentimento de culpa não colocaria Meredith ou os seus filhos em perigo algum. Finalmente, um outro motivo levara tanto Meredith como Roy a duvidar seriamente da autenticidade da carta. A pessoa que a tinha escrito havia revelado um considerável talento para a escrita. Tal contrastava com a personalidade de Edward, um homem de poucas palavras que nunca havia demonstrado grande interesse na literatura. Edward não era certamente um homem eloquente e se tivesse decidido, de facto, escrever uma carta de despedida, provavelmente teria sido muito mais discreta e de um caráter menos literário que aquela que Meredith e Roy tiveram a oportunidade de ler. Tal conclusão era partilhada por ambos, e Roy estava agora consideravelmente menos convencido de que o seu amigo tinha realmente se suicidado.
Ainda assim, Roy precisava de muito mais do que meras conjeturas, de forma a resolver o caso. Precisava de provas, para demonstrar realmente que o seu amigo tinha sido assassinado. E, certamente, precisaria de indícios que lhe permitissem descobrir quem estava por trás da morte de Edward.
Dizem que os criminosos sempre voltam ao lugar do crime. Mesmo que desta feita tal não ocoresse, visitar o local onde se havia produzido a morte do amigo poderia permitir a Roy encontrar alguma pista que o ajudasse a prosseguir a sua investigação. Era esse o motivo pelo qual Roy havia se deslocado até à casa de campo da família Joyce nessa noite. Não possuindo um carro já há alguns anos, Roy não tinha tido alternativa senão recorrer aos dispendiosos serviços de um taxista, o qual observa com satisfação o seu taxímetro, que marca um valor bastante alto.
- Então o senhor quer que espere por si aqui? - pergunta.
- Sim, como havíamos acordado. Não devo demorar muito, quinze, vinte minutos no máximo.-responde Roy.
- Sabe,enquanto espero tenho que deixar o taxímetro correr. Se eu estivesse no seu lugar não me demoraria muito.
- Eu sei. Procurarei não demorar. Obrigado. – diz Roy, antes de abrir a porta do taxi e abandonar o vehículo. Imediatamente sente como a chuva golpeia a sua cara, e como o frio intenso permeia facilmente a sua gabardine.
Caminha rapidamente na direção da casa, mergulhando os seus sapatos na terra lamacenta. Em meio minuto encontra-se em frente à casa. É uma estructura de doia andares, construída em madeira, rodeada apenas por uma considerável extensão de verdes campos, uma paisagem tipicamente inglesa. Uma estreita estrada de terra dá acesso à moradia, e quando Roy olha para trás, vê como o taxista lhe acena de dentro do carro. Roy procura no seu bolso a chave que Meredith lhe tinha dado na noite anterior e, após encontrá-la, insere-a na fechadura. A porte abre e Roy entra na moradia, deixando a chuva e o frio atrás de si.
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