Uma vez mais, Roy caminha ao longo do corredor, envolto pela escuridão. Desta feita,a cada passo que dá, sente como o chão abaixo de si é pegajoso. Como se estivesse coberto por uma substância líquida,mas não como água, mais densa. Continua a caminhar sentindo como os seus sapatos se afundam na substância que reveste o chão de madeira. Após alguns instantes, começa a vislumbrar um clarão ao fundo do corredor. A cada passo dado, mais forte se torna a luz e mais evidente se torna que a substância que alaga o chão é um líquido encarnado, sem dúvida sangue. Litros e litros de sangue, como seria necessário para alagar um longo corredor. Roy receia descobrir a sua origem, mas tal torna-se inevitável à medida que continua a caminhar. Encontra-se novamente na mesma ampla sala, mal iluminada. Ao centro, uma cadeira. Sentada na cadeira, uma forma humana. Roy sabe que se trata, mais uma vez, do seu amigo Edward. Embora desta vez ele não seja sequer reconhecível. É uma figura com forma humana, mas aparentemente sem pele, ou cabelos. É uma massa vermelha da qual emana uma inesgotável torrente de sangue. As suas feições faciais são praticamente irreconhecíveis. No lugar da boca só se pode ver um buraco, e no lugar dos olhos, somente dois esféricos de cor totalmente branca, que produzem algo semelhante a um olhar, mas mil vezes mais aterrorizador do que o olhar de qualquer ser humano.
Roy aproxima-se lentamente da horrenda figura.
E eis que uma voz gutural ecoa no salão:
- Roy Spencer! O momento chegou. O caminho está traçado. Deves fazê-lo!
- Edward? Não entendo... o que éque eu devo fazer? Diz-me!
- Tu sabes... sempre soubeste. Está dentro de ti. Segue a tua intuição e começa a tua travessia. Encontrarás a resposta, se tiveres a coragem de procurá-la... Busca a verdade Roy Spencer, sempre!
Sem saber nem como nem porquê, Roy dá por si uma vez mais caminhando ao longo de um corredor escuro. Sabe no entanto que este é um corredor diferente, um pouco graças à sua intuição, mas também porque o chão já não é pegajoso, nem está coberto por líquido algum. Passam-se alguns instantes, e o corredor desemboca num amplo quarto. Rapidamente, Roy se dá conta que se trata do seu próprio quarto. Uma mulher jaz na sua cama de casal. A iluminação no quarto é tênue, mas Roy reconhece-a imediatamente. É a sua própria esposa, Laura, falecida há três anos atrás. Roy despe a sua gabardine, e pendura-a num cabide na parede. Depois, deita-se na cama, ao lado da sua mulher, enquanto se descalça. Aos olhos de Roy, ela é a mulher mais linda do mundo naquele momento. Mesmo apesar das numerosas rugas, que marcam a passagem do tempo. Os olhos dela estão fechados, mas Roy percebe que ele não está morta. Está simplesmente dormindo. Durante alguns segundos, ela permanece imóvel enquanto Roy a observa com deleite. Oh, quão solitária se tornou a sua vida, desde que a sua companheira partiu! Roy sabe perfeitamente que se trata de um sonho, embora parte do seu cérebro se negue a admiti-lo. A única coisa que se move, nesses preciosos instantes, é o ventre de Laura,que oscila levemente, ora para cima, ora para baixo, marcando o ritmo da sua respiração.
Finalmente, ela abre os olhos e gira-se na direçãode Roy. Os seus olhares se cruzam, e ambos mergulham no olhar apaixonado do outro. Os seus rostos estão separados apenas por alguns centímetros, mas não se chegam a tocar. Roy consegue sentir a sua respiração. Sabe que não podem estar juntos, excepto em sonhos. Um enorme oceano os separa. Ela faz parte de um mundo, ele de outro. Antes de adormecer outra vez ela sussura-lhe, ‘Algum dia voltaremos a estar juntos, mas antes disso, deves terminar de escrever a tua história.’ Roy segura na mão dela, e fecha os olhos. Quando volta a abri-los, está deitado na mesma cama, no mesmo quarto, mas sozinho.
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