- É aqui? – perguntou o taxista, com um forte sotaque oriental, a condizer com os seus rasgos faciais que levavam a pensar que provinha algures do sub-continente indiano.
- Sim. É aqui.- respondeu Roy Spencer, reconhecendo a casa de campo da família Joyce, mesmo apesar da densa camada de chuva que caía sobre a noite Inglesa, e embaciava as janelas do táxi.
A revelação da noite anterior havia abalado Roy Spencer seriamente. Por um lado, sentia-se traído pelo seu melhor amigo. Durante todos aqueles anos tinha visto em Edward Joyce um modelo de virtude. Um verdadeiro exemplo, tanto como pai de família como agente da lei. Agora, no entanto, era obrigado a aceitar o fato que Edward tinha se deixado corromper. Que, em algum momento, ele tinha deixado de ser o valoroso Edward que Roy havia conhecido tantos anos atrás na academia de polícia. Por outro lado, se Edward tinha sido de fato assassinado, era o seu dever como amigo vingar a sua morte. Uma missão que Roy Spencer, agora um ancião, não se sentia inteiramente capaz de levar a cabo.
De qualquer forma, Roy sentia-se na obrigação de investigar a morte do seu velho amigo. Havia dado a sua palavra a Meredith, e mesmo que não o tivesse feito, a sua amizade com Edward constrangia-o a tal. Por isso, ao final da tarde, após refletir cuidadosamente sobre o caso,chamou um taxi e rumou em direção à casa de campo de Edward e Meredith Joyce em Surrey.
Edward tinha sido encontrado morto na sua casa de campo, com uma bala na cabeça. Quando foi descoberto, o seu corpo jazia no solo de madeira da ampla sala de estar. Segurava a pistola que havia realizado o disparo mortal. Uma ampla poça de sangue regava o chão à sua volta. Tinha sido o seu filho Henry a encontrar o corpo e a chamar a polícia. Antes de suicidar-se, Edward tinha escrito uma carta. A versão original tinha sido requisitada pela polícia como prova, mas Meredith tinha recebido uma cópia, que havia mostrado a Roy:
Queridos familiares e amigos,
É com uma certa tristeza que vos escrevo esta derradeira carta. São estas as minhas últimas palavras, e espero que não vos provoquem demasiada tristeza. São palavras de despedida. A última despedida. Quando leiais esta carta, o fareis certamente com o conhecimento que não me encontro mais entre vós. Pela dor provocada por este meu último ato, vos peço sinceras desculpas. A minha decisão, no entanto, já está tomada. Espero que possais perdoar-me, sabendo as razões que me levaram a tal ato.
Por mais que vos ame, Meredith, Henry e Samantha, não consigo afastar a sensação que os meus melhores dias já passaram. Todos os dias acordo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, começarei a perder a razão, até que um dia não serei mais eu próprio. Todas as manhãs desperto com a consciência de que, a cada dia que passa, mais débil o meu corpo se torna, até que, uma manhã qualquer, não serei capaz de me levantar da cama sem ajuda. Cada vez que olho no espelho estou mais velho e cansado e nada que eu faça poderá alterar essa tendência. Como todas as criaturas vivas dotadas de consciência, tenho medo da morte. No entanto, quanto mais me aproximo dela, menos ameaçadora se torna. Por outro lado, é a velhice que me apavora. Não a velhice de agora, mas a velhice do futuro. Não consigo suportar a idéia de que um dia não poderei mais caminhar sem a ajuda de alguém ou, pior ainda, que não serei o mesmo, que até mesmo as minhas faculdades mentais pouco a pouco irão se mermando. Este é um medo que me consome, dia a dia, e ao qual não consigo já resistir. Convido portanto a morte a levar-me agora, enquanto conservo a minha dignidade.
À minha mulher Meredith e aos meus filhos, amo-vos de todo o coração. Aos meus bons amigos, agradeço-vos pelos bons momentos partilhados ao longo de muitos anos.
Edward Joyce
Meredith havia confirmado que a letra era a de Edward. Quanto a isso não havia dúvida, tinha sido ele a escrever a carta. Ou ele, ou alguém capaz de copiar a sua letra.
A carta de despedida era comovente e os sentimentos nela expressos não eram alheios à forma como o próprio Roy encarava este derradeiro período da sua vida. O motivo do suicídio era portanto, à partida, plenamente credível. Não fosse pela revelação de Meredith na noite anterior, que certamente criava certas suspeitas respeito ao momento escolhido por Edward para se suicidar. Por outro lado,não havia alguma referência ao caso de corrupção na carta de Edward. Se realmente ele se sentia tão culpado, certamente esse poderia ser um forte motivo para o suicídio. Ou, no mínimo, Edward teria feito alguma alusão ao caso na sua carta de despedida. É certo que talvez Edward tivesse escolhido não referir o assunto temendo que a carta fosse lida pelas pessoas erradas, mas mesmo que assim fosse, uma sutil referência ao seu sentimento de culpa não colocaria Meredith ou os seus filhos em perigo algum. Finalmente, um outro motivo levara tanto Meredith como Roy a duvidar seriamente da autenticidade da carta. A pessoa que a tinha escrito havia revelado um considerável talento para a escrita. Tal contrastava com a personalidade de Edward, um homem de poucas palavras que nunca havia demonstrado grande interesse na literatura. Edward não era certamente um homem eloquente e se tivesse decidido, de facto, escrever uma carta de despedida, provavelmente teria sido muito mais discreta e de um caráter menos literário que aquela que Meredith e Roy tiveram a oportunidade de ler. Tal conclusão era partilhada por ambos, e Roy estava agora consideravelmente menos convencido de que o seu amigo tinha realmente se suicidado.
Ainda assim, Roy precisava de muito mais do que meras conjeturas, de forma a resolver o caso. Precisava de provas, para demonstrar realmente que o seu amigo tinha sido assassinado. E, certamente, precisaria de indícios que lhe permitissem descobrir quem estava por trás da morte de Edward.
Dizem que os criminosos sempre voltam ao lugar do crime. Mesmo que desta feita tal não ocoresse, visitar o local onde se havia produzido a morte do amigo poderia permitir a Roy encontrar alguma pista que o ajudasse a prosseguir a sua investigação. Era esse o motivo pelo qual Roy havia se deslocado até à casa de campo da família Joyce nessa noite. Não possuindo um carro já há alguns anos, Roy não tinha tido alternativa senão recorrer aos dispendiosos serviços de um taxista, o qual observa com satisfação o seu taxímetro, que marca um valor bastante alto.
- Então o senhor quer que espere por si aqui? - pergunta.
- Sim, como havíamos acordado. Não devo demorar muito, quinze, vinte minutos no máximo.-responde Roy.
- Sabe,enquanto espero tenho que deixar o taxímetro correr. Se eu estivesse no seu lugar não me demoraria muito.
- Eu sei. Procurarei não demorar. Obrigado. – diz Roy, antes de abrir a porta do taxi e abandonar o vehículo. Imediatamente sente como a chuva golpeia a sua cara, e como o frio intenso permeia facilmente a sua gabardine.
Caminha rapidamente na direção da casa, mergulhando os seus sapatos na terra lamacenta. Em meio minuto encontra-se em frente à casa. É uma estructura de doia andares, construída em madeira, rodeada apenas por uma considerável extensão de verdes campos, uma paisagem tipicamente inglesa. Uma estreita estrada de terra dá acesso à moradia, e quando Roy olha para trás, vê como o taxista lhe acena de dentro do carro. Roy procura no seu bolso a chave que Meredith lhe tinha dado na noite anterior e, após encontrá-la, insere-a na fechadura. A porte abre e Roy entra na moradia, deixando a chuva e o frio atrás de si.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Roy Spencer - VI
Uma vez mais, Roy caminha ao longo do corredor, envolto pela escuridão. Desta feita,a cada passo que dá, sente como o chão abaixo de si é pegajoso. Como se estivesse coberto por uma substância líquida,mas não como água, mais densa. Continua a caminhar sentindo como os seus sapatos se afundam na substância que reveste o chão de madeira. Após alguns instantes, começa a vislumbrar um clarão ao fundo do corredor. A cada passo dado, mais forte se torna a luz e mais evidente se torna que a substância que alaga o chão é um líquido encarnado, sem dúvida sangue. Litros e litros de sangue, como seria necessário para alagar um longo corredor. Roy receia descobrir a sua origem, mas tal torna-se inevitável à medida que continua a caminhar. Encontra-se novamente na mesma ampla sala, mal iluminada. Ao centro, uma cadeira. Sentada na cadeira, uma forma humana. Roy sabe que se trata, mais uma vez, do seu amigo Edward. Embora desta vez ele não seja sequer reconhecível. É uma figura com forma humana, mas aparentemente sem pele, ou cabelos. É uma massa vermelha da qual emana uma inesgotável torrente de sangue. As suas feições faciais são praticamente irreconhecíveis. No lugar da boca só se pode ver um buraco, e no lugar dos olhos, somente dois esféricos de cor totalmente branca, que produzem algo semelhante a um olhar, mas mil vezes mais aterrorizador do que o olhar de qualquer ser humano.
Roy aproxima-se lentamente da horrenda figura.
E eis que uma voz gutural ecoa no salão:
- Roy Spencer! O momento chegou. O caminho está traçado. Deves fazê-lo!
- Edward? Não entendo... o que éque eu devo fazer? Diz-me!
- Tu sabes... sempre soubeste. Está dentro de ti. Segue a tua intuição e começa a tua travessia. Encontrarás a resposta, se tiveres a coragem de procurá-la... Busca a verdade Roy Spencer, sempre!
Sem saber nem como nem porquê, Roy dá por si uma vez mais caminhando ao longo de um corredor escuro. Sabe no entanto que este é um corredor diferente, um pouco graças à sua intuição, mas também porque o chão já não é pegajoso, nem está coberto por líquido algum. Passam-se alguns instantes, e o corredor desemboca num amplo quarto. Rapidamente, Roy se dá conta que se trata do seu próprio quarto. Uma mulher jaz na sua cama de casal. A iluminação no quarto é tênue, mas Roy reconhece-a imediatamente. É a sua própria esposa, Laura, falecida há três anos atrás. Roy despe a sua gabardine, e pendura-a num cabide na parede. Depois, deita-se na cama, ao lado da sua mulher, enquanto se descalça. Aos olhos de Roy, ela é a mulher mais linda do mundo naquele momento. Mesmo apesar das numerosas rugas, que marcam a passagem do tempo. Os olhos dela estão fechados, mas Roy percebe que ele não está morta. Está simplesmente dormindo. Durante alguns segundos, ela permanece imóvel enquanto Roy a observa com deleite. Oh, quão solitária se tornou a sua vida, desde que a sua companheira partiu! Roy sabe perfeitamente que se trata de um sonho, embora parte do seu cérebro se negue a admiti-lo. A única coisa que se move, nesses preciosos instantes, é o ventre de Laura,que oscila levemente, ora para cima, ora para baixo, marcando o ritmo da sua respiração.
Finalmente, ela abre os olhos e gira-se na direçãode Roy. Os seus olhares se cruzam, e ambos mergulham no olhar apaixonado do outro. Os seus rostos estão separados apenas por alguns centímetros, mas não se chegam a tocar. Roy consegue sentir a sua respiração. Sabe que não podem estar juntos, excepto em sonhos. Um enorme oceano os separa. Ela faz parte de um mundo, ele de outro. Antes de adormecer outra vez ela sussura-lhe, ‘Algum dia voltaremos a estar juntos, mas antes disso, deves terminar de escrever a tua história.’ Roy segura na mão dela, e fecha os olhos. Quando volta a abri-los, está deitado na mesma cama, no mesmo quarto, mas sozinho.
Roy aproxima-se lentamente da horrenda figura.
E eis que uma voz gutural ecoa no salão:
- Roy Spencer! O momento chegou. O caminho está traçado. Deves fazê-lo!
- Edward? Não entendo... o que éque eu devo fazer? Diz-me!
- Tu sabes... sempre soubeste. Está dentro de ti. Segue a tua intuição e começa a tua travessia. Encontrarás a resposta, se tiveres a coragem de procurá-la... Busca a verdade Roy Spencer, sempre!
Sem saber nem como nem porquê, Roy dá por si uma vez mais caminhando ao longo de um corredor escuro. Sabe no entanto que este é um corredor diferente, um pouco graças à sua intuição, mas também porque o chão já não é pegajoso, nem está coberto por líquido algum. Passam-se alguns instantes, e o corredor desemboca num amplo quarto. Rapidamente, Roy se dá conta que se trata do seu próprio quarto. Uma mulher jaz na sua cama de casal. A iluminação no quarto é tênue, mas Roy reconhece-a imediatamente. É a sua própria esposa, Laura, falecida há três anos atrás. Roy despe a sua gabardine, e pendura-a num cabide na parede. Depois, deita-se na cama, ao lado da sua mulher, enquanto se descalça. Aos olhos de Roy, ela é a mulher mais linda do mundo naquele momento. Mesmo apesar das numerosas rugas, que marcam a passagem do tempo. Os olhos dela estão fechados, mas Roy percebe que ele não está morta. Está simplesmente dormindo. Durante alguns segundos, ela permanece imóvel enquanto Roy a observa com deleite. Oh, quão solitária se tornou a sua vida, desde que a sua companheira partiu! Roy sabe perfeitamente que se trata de um sonho, embora parte do seu cérebro se negue a admiti-lo. A única coisa que se move, nesses preciosos instantes, é o ventre de Laura,que oscila levemente, ora para cima, ora para baixo, marcando o ritmo da sua respiração.
Finalmente, ela abre os olhos e gira-se na direçãode Roy. Os seus olhares se cruzam, e ambos mergulham no olhar apaixonado do outro. Os seus rostos estão separados apenas por alguns centímetros, mas não se chegam a tocar. Roy consegue sentir a sua respiração. Sabe que não podem estar juntos, excepto em sonhos. Um enorme oceano os separa. Ela faz parte de um mundo, ele de outro. Antes de adormecer outra vez ela sussura-lhe, ‘Algum dia voltaremos a estar juntos, mas antes disso, deves terminar de escrever a tua história.’ Roy segura na mão dela, e fecha os olhos. Quando volta a abri-los, está deitado na mesma cama, no mesmo quarto, mas sozinho.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Roy Spencer # 5
Alguns minutos depois de chegar a casa, Roy escuta o telefone tocar. Atende após alguns segundos, e escuta a voz de uma mulher no outro lado da linha.
- Olá Roy, sou eu, Meredith.
- Olá Meredith... está tudo bem? – pergunta Roy, algo surpreso.
- Sim, está tudo bem. Tenho tentado telefonar-te a tarde inteira.
- Estava na casa de Dora. Costumo lá jantar nas quartas-feiras. Precisas de alguma coisa? Está tudo bem com o Henry e com a Sam?
- Sim, eles estão bem. Mas eu gostaria de falar contigo.
- Okay, claro. Se quiseres podemos nos encontrar amanhã e conversar.
- Na verdade, se não for um incômodo, eu preferiria falar contigo hoje.
- Hum...é urgente?
-Não exatamente. Mas eu gostaria de falar contigo em pessoa, e preferiria que fosse hoje.
- Okay, eu vou apanhar um taxi agora. – disse Roy após alguns instantes de hesitação.
- Não te preocupes. Eu posso encontar-te na tua casa. Estarei aí em menos de uma hora.
- Tens a certeza? – pergunta Roy.
- Sim, não há problema. Até logo. – diz a viúva antes de desligar.
Cerca de meia-hora depois, Meredith chega à casa de Roy. Após ouvir a campainha tocar, Roy abre a porta à viúva. Entretanto, tinha começado a chover.
Roy convida Meredith a entrar, e ela aceita o convite.
- Está chovendo torrencialmente. Este tempo é horrível. – Queixa-se a viúva, enquanto fecha o guarda-chuva.
- Obrigado – diz Meredith enquanto entrega a Roy o casaco e o guarda chuva molhados. Roy pendura o casaco num cabide na parede do hall de entrada e coloca o guarda chuva num pequeno balde juntamente com outros três guarda-chuvas lá guardados. – Não faz mal Roy, para falar a verdade eu precisava sair de casa, mudar de ambiente, mesmo que seja por pouco tempo.
- Entendo.- diz Roy – Gostarias de beber uma chávena de chá?
- Sim, obrigado.
Roy prepara duas chávenas de chá, e oferece também biscoitos a Meredith, enquanto os dois se instalam na cozinha, onde Roy costma tomar as suas refeições. Há meses que a mesa na sala de jantar não é utilizada.
- Pelo telefone não chegaste a dizer-me sobre o quê querias conversar Meredith. Suponho que se trate de Edward.
- Sim... não queria conversar pelo telefone. É um assunto delicado, e de qualquer forma acho que é melhor conversar em pessoa. Roy, preciso pedir-te um favor.- diz a viúva, com uma expressão de grande seriedade.
- Claro, claro Meredith. O que precisares. De que se trata? – disse Roy, algo preocupado.
- Eu gostaria que investigasses a morte do Edward.
- O que é que queres dizer?
- Eu não acredito que ele tenha se suicidado, é isso que querodizer.
As palavras da viúva penetram o peito de Roy como uma faca.
- O que te leva a dizer isso?
- Porque não faz sentido. Não digo que seja completamente impossível, mas eu tenho as minha dúvidas. E por isso preciso que me ajudes a descubrir se ele realmente se suicidou, ou se alguém quis que parecesse que foi isso que aconteceu.
- Meredith, não me parece que Edward tenha muitos inimigos. Isso que sugeres, é bastante improvável. Quem poderia ter sido o responsável? Quem poderia ter um motivo forte o suficiente?
- Eu suspeito que tenha sido alguém que ele conhecia. Alguém do seu passado como agente da polícia.
- Alguém que ele prendeu, ou ajudou a prender?
- Talvez... ou talvez algum dos seus ex-colegas.
- O que é que queres dizer? – perguntou Roy, chocado.
- Nos últimos meses, Edward tinha começado a comportar-se de forma estranha. Talvez tenhas notado...
- É verdade que, de certa forma, parecia que me estava a evitar.
- Isso é porque estava. Algumas semanas antes de morrer confessou-me uma coisa que não teve coragem de dizer-te nunca. Durante muitos anos, ele tinha aceite um envelope todos os meses, tal como muitos dos seus colegas. O envelope era para se manter calado, em relação a certas questões... guardar alguns segredos, encobrir alguns criminosos e até certos membros corruptos da polícia. Dias antes de morrer ele disse-me que ia denunciar as pessoas que ele sabia estar envolvidas, mesmo que isso significasse ser preso. Ele disse que isso era a coisa certa a fazer. – Meredith parou por alguns instantes, não conseguindo conter algumas lágrimas. Roy entretanto não conseguia proferir sequer uma palavra, chocado como estava. Depois prosseguiu – Por isso, como vês Roy, eu tenho boas razões para duvidar da versão oficial dos acontecimentos. Sei que estás decepcionado, mas acredito que farás a coisa certa e honrarás a memória de Edward. Ele amava-te como um irmão. Investigarás este último caso Roy Spencer? Aceites o meu pedido?
-Sim. – responde Roy, após alguns instantes de hesitação.
- Olá Roy, sou eu, Meredith.
- Olá Meredith... está tudo bem? – pergunta Roy, algo surpreso.
- Sim, está tudo bem. Tenho tentado telefonar-te a tarde inteira.
- Estava na casa de Dora. Costumo lá jantar nas quartas-feiras. Precisas de alguma coisa? Está tudo bem com o Henry e com a Sam?
- Sim, eles estão bem. Mas eu gostaria de falar contigo.
- Okay, claro. Se quiseres podemos nos encontrar amanhã e conversar.
- Na verdade, se não for um incômodo, eu preferiria falar contigo hoje.
- Hum...é urgente?
-Não exatamente. Mas eu gostaria de falar contigo em pessoa, e preferiria que fosse hoje.
- Okay, eu vou apanhar um taxi agora. – disse Roy após alguns instantes de hesitação.
- Não te preocupes. Eu posso encontar-te na tua casa. Estarei aí em menos de uma hora.
- Tens a certeza? – pergunta Roy.
- Sim, não há problema. Até logo. – diz a viúva antes de desligar.
Cerca de meia-hora depois, Meredith chega à casa de Roy. Após ouvir a campainha tocar, Roy abre a porta à viúva. Entretanto, tinha começado a chover.
Roy convida Meredith a entrar, e ela aceita o convite.
- Está chovendo torrencialmente. Este tempo é horrível. – Queixa-se a viúva, enquanto fecha o guarda-chuva.
- Obrigado – diz Meredith enquanto entrega a Roy o casaco e o guarda chuva molhados. Roy pendura o casaco num cabide na parede do hall de entrada e coloca o guarda chuva num pequeno balde juntamente com outros três guarda-chuvas lá guardados. – Não faz mal Roy, para falar a verdade eu precisava sair de casa, mudar de ambiente, mesmo que seja por pouco tempo.
- Entendo.- diz Roy – Gostarias de beber uma chávena de chá?
- Sim, obrigado.
Roy prepara duas chávenas de chá, e oferece também biscoitos a Meredith, enquanto os dois se instalam na cozinha, onde Roy costma tomar as suas refeições. Há meses que a mesa na sala de jantar não é utilizada.
- Pelo telefone não chegaste a dizer-me sobre o quê querias conversar Meredith. Suponho que se trate de Edward.
- Sim... não queria conversar pelo telefone. É um assunto delicado, e de qualquer forma acho que é melhor conversar em pessoa. Roy, preciso pedir-te um favor.- diz a viúva, com uma expressão de grande seriedade.
- Claro, claro Meredith. O que precisares. De que se trata? – disse Roy, algo preocupado.
- Eu gostaria que investigasses a morte do Edward.
- O que é que queres dizer?
- Eu não acredito que ele tenha se suicidado, é isso que querodizer.
As palavras da viúva penetram o peito de Roy como uma faca.
- O que te leva a dizer isso?
- Porque não faz sentido. Não digo que seja completamente impossível, mas eu tenho as minha dúvidas. E por isso preciso que me ajudes a descubrir se ele realmente se suicidou, ou se alguém quis que parecesse que foi isso que aconteceu.
- Meredith, não me parece que Edward tenha muitos inimigos. Isso que sugeres, é bastante improvável. Quem poderia ter sido o responsável? Quem poderia ter um motivo forte o suficiente?
- Eu suspeito que tenha sido alguém que ele conhecia. Alguém do seu passado como agente da polícia.
- Alguém que ele prendeu, ou ajudou a prender?
- Talvez... ou talvez algum dos seus ex-colegas.
- O que é que queres dizer? – perguntou Roy, chocado.
- Nos últimos meses, Edward tinha começado a comportar-se de forma estranha. Talvez tenhas notado...
- É verdade que, de certa forma, parecia que me estava a evitar.
- Isso é porque estava. Algumas semanas antes de morrer confessou-me uma coisa que não teve coragem de dizer-te nunca. Durante muitos anos, ele tinha aceite um envelope todos os meses, tal como muitos dos seus colegas. O envelope era para se manter calado, em relação a certas questões... guardar alguns segredos, encobrir alguns criminosos e até certos membros corruptos da polícia. Dias antes de morrer ele disse-me que ia denunciar as pessoas que ele sabia estar envolvidas, mesmo que isso significasse ser preso. Ele disse que isso era a coisa certa a fazer. – Meredith parou por alguns instantes, não conseguindo conter algumas lágrimas. Roy entretanto não conseguia proferir sequer uma palavra, chocado como estava. Depois prosseguiu – Por isso, como vês Roy, eu tenho boas razões para duvidar da versão oficial dos acontecimentos. Sei que estás decepcionado, mas acredito que farás a coisa certa e honrarás a memória de Edward. Ele amava-te como um irmão. Investigarás este último caso Roy Spencer? Aceites o meu pedido?
-Sim. – responde Roy, após alguns instantes de hesitação.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Roy Spencer # 4
Roy toca a campainha. Alguns instantes mais tarde, a porta abre-se à sua frente. A sua filha, Dora, cumprimenta-o com um beijo na bochecha esquerda.
- Entra pai. Como estás?
- Estou bem, obrigado. E tu?
- Tudo bem. Como sempre. Eu e o Jack trabalhamos bastante e raramente temos tempo para nós próprios, a Sarah costuma se sair bastante bem na escola, e o William um pouco menos...
Dora e Jack haviam se conhecido há mais de duas décadas atrás quando ambos eram estudantes na Universidade de Leeds. Jack estudava engenheria então, e Dora estudava Francês e Espanhol. Quando terminaram a faculdade mudaram-se para Londres, a cidade natal de Dora, onde Jack arranjou trabalho como engenheiro e Dora como professora. Há quinze anos atrás tiveram a Sarah e três anos depois o William. A família morava numa comfortável casa de dois andares e quatro quartos no bairro londrino de Kew Gardens, adquirida pouco depois do nascimento de William. Cerca de uma vez por semana, Roy visitava a residência da jovem família. O costume tinha originado alguns anos atrás, pouco depois do falecimento de Laura Spencer, a mulher de Roy e a mãe de Dora.
- Olá Roy, está tudo bem consigo? – perguntou Jack, o marido de Dora, enquanto o cumprimentava com um aperto de mão.Jack tinha quarenta e poucos anos. Era alto, magro e tinha cabelos loiros. Era um tipo simpático, e a relação entre ambos era cordial.
- Está tudo bem, obrigado. Onde estão as crianças? – disse Roy.
- Estão lá em cima, mas no seu lugar eu não os chamaria de crianças. Acho que agora temos de chamá-los de adolescentes. Principalmente a Sarah, ela tem quinze anos e acha que já é uma mulher crescida. –disse a filha de Roy, Dora.
- De acordo com o que eu me lembro, t não eras muito diferente quando tinhas a sua idade.-disse Roy Spencer.
No mesmo instante, Sarah e William desciam as escadas e se juntavam a Roy, Dora e Jack no hall de entrada.
- Aham! Finalmente alguém que me defende. Obrigado avô. –disse a jovem Sarah abraçando-o e dando-lhe um beijo.
- Haha, o teu avô estará sempre aqui para te defender. E tu Will,não me dás um abraço?
O pequeno Will, de cabelos castanhos claros e olhos verdes, deu então um caloroso abraço ao seu avô. Roy Spencer amava os seus dois netos mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, inclusive a sua filha Dora. Mas entre os dois, secretamente havia escolhido Will como o seu favorito. O sentimento era recíproco. William, que há um ano e pouco atrás tinha começado a interessar-se progressivamente por histórias de detectives e super-heróis, via o seu avô, um condecorado ex-detective como um herói.
- E então, pequeno Will, a tua mãe diz-me que as tuas notas não têm sido muito altas.
- Nem muito altas nem muito baixas. É difícil competir com a Sarah, ela tem sempre a nota mais alta em quase tudo.
- Se passasses a metade to tempo que passas lendo comics estudando também serias o melhor aluno da tua turma. – disse Dora.
- Certo. O problema é que os livros de matemática e ciência não são propriamente tão interessantes quanto as histórias do Batman ou do Homem-Aranha. – retorquiu William, motivando uma gargalhada geral. Até Dora não conseguiu deixar de sorrir perante a resposta astuta do pequeno William.
A família reunida disfruta do jantar preparado por Dora. A ementa é simples e tipicamente inglesa: jacket potatoes filled with chili con carne e salada como acompanhamento. Os adultos acompanham a refeição com uma garrafa de Chianti, as crianças (ou adolescentes, como certamente prefeririam ser designados) têm que se contentar com uma garrafa de Fanta de laranja. Como é habitual na velha Inglaterra, o jantar é servido cedo, por volta das sete horas.
Após o jantar, Sarah, Jack e William retomanos seus afazeres.Enquanto isso, Dora troca algumas palavras com o seu pai, antes de despedir-se dele.
- Sinto muito por não termos ido ao funeral do Edward pai... Eu e o Jack estamos sempre muito atarefados com os nossos respectivos trabalhos, e as crianças têm a escola... – desculpou-se Dora.
- Eu entendo... –disse Roy sem grande convicção.-Sabes que ele gostava de ti como se fosses a sua sobrinha de verdade...
- Eu sei...-respondeu Dora, num tom de culpa – Eu nem acredito que ele... A Meredith deve estar devastada. E o Henry e a Samantha também.
- Falaste com algum deles? –perguntou Roy.
- Não... ainda não. Não tive coragem. Mas vou telefonar. Como é que eles estão?
- Algo abalados. Mas sobreviverão. Como nós sobrevivemos...
- E tu? Como te sentes? Eu sei que ele era como um irmão para ti.
- Eu... também sobreviverei.
- Pai... sabes que se quisesses poderias vir morar conosco. Temos espaço, e assim passarias mais tempo comigo e com os teus netos. Tenho medo que te sintas demasiado sozinho naquela casa.
- Obrigado Dora, mas aquela é a minha casa. Não te preocupes comigo. Eu estou bem. Obrigado pelo jantar.
Roy despede-se da filha dando-lhe um beijo na testa, e mergulha de novo na fria noite londrina.
- Entra pai. Como estás?
- Estou bem, obrigado. E tu?
- Tudo bem. Como sempre. Eu e o Jack trabalhamos bastante e raramente temos tempo para nós próprios, a Sarah costuma se sair bastante bem na escola, e o William um pouco menos...
Dora e Jack haviam se conhecido há mais de duas décadas atrás quando ambos eram estudantes na Universidade de Leeds. Jack estudava engenheria então, e Dora estudava Francês e Espanhol. Quando terminaram a faculdade mudaram-se para Londres, a cidade natal de Dora, onde Jack arranjou trabalho como engenheiro e Dora como professora. Há quinze anos atrás tiveram a Sarah e três anos depois o William. A família morava numa comfortável casa de dois andares e quatro quartos no bairro londrino de Kew Gardens, adquirida pouco depois do nascimento de William. Cerca de uma vez por semana, Roy visitava a residência da jovem família. O costume tinha originado alguns anos atrás, pouco depois do falecimento de Laura Spencer, a mulher de Roy e a mãe de Dora.
- Olá Roy, está tudo bem consigo? – perguntou Jack, o marido de Dora, enquanto o cumprimentava com um aperto de mão.Jack tinha quarenta e poucos anos. Era alto, magro e tinha cabelos loiros. Era um tipo simpático, e a relação entre ambos era cordial.
- Está tudo bem, obrigado. Onde estão as crianças? – disse Roy.
- Estão lá em cima, mas no seu lugar eu não os chamaria de crianças. Acho que agora temos de chamá-los de adolescentes. Principalmente a Sarah, ela tem quinze anos e acha que já é uma mulher crescida. –disse a filha de Roy, Dora.
- De acordo com o que eu me lembro, t não eras muito diferente quando tinhas a sua idade.-disse Roy Spencer.
No mesmo instante, Sarah e William desciam as escadas e se juntavam a Roy, Dora e Jack no hall de entrada.
- Aham! Finalmente alguém que me defende. Obrigado avô. –disse a jovem Sarah abraçando-o e dando-lhe um beijo.
- Haha, o teu avô estará sempre aqui para te defender. E tu Will,não me dás um abraço?
O pequeno Will, de cabelos castanhos claros e olhos verdes, deu então um caloroso abraço ao seu avô. Roy Spencer amava os seus dois netos mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, inclusive a sua filha Dora. Mas entre os dois, secretamente havia escolhido Will como o seu favorito. O sentimento era recíproco. William, que há um ano e pouco atrás tinha começado a interessar-se progressivamente por histórias de detectives e super-heróis, via o seu avô, um condecorado ex-detective como um herói.
- E então, pequeno Will, a tua mãe diz-me que as tuas notas não têm sido muito altas.
- Nem muito altas nem muito baixas. É difícil competir com a Sarah, ela tem sempre a nota mais alta em quase tudo.
- Se passasses a metade to tempo que passas lendo comics estudando também serias o melhor aluno da tua turma. – disse Dora.
- Certo. O problema é que os livros de matemática e ciência não são propriamente tão interessantes quanto as histórias do Batman ou do Homem-Aranha. – retorquiu William, motivando uma gargalhada geral. Até Dora não conseguiu deixar de sorrir perante a resposta astuta do pequeno William.
A família reunida disfruta do jantar preparado por Dora. A ementa é simples e tipicamente inglesa: jacket potatoes filled with chili con carne e salada como acompanhamento. Os adultos acompanham a refeição com uma garrafa de Chianti, as crianças (ou adolescentes, como certamente prefeririam ser designados) têm que se contentar com uma garrafa de Fanta de laranja. Como é habitual na velha Inglaterra, o jantar é servido cedo, por volta das sete horas.
Após o jantar, Sarah, Jack e William retomanos seus afazeres.Enquanto isso, Dora troca algumas palavras com o seu pai, antes de despedir-se dele.
- Sinto muito por não termos ido ao funeral do Edward pai... Eu e o Jack estamos sempre muito atarefados com os nossos respectivos trabalhos, e as crianças têm a escola... – desculpou-se Dora.
- Eu entendo... –disse Roy sem grande convicção.-Sabes que ele gostava de ti como se fosses a sua sobrinha de verdade...
- Eu sei...-respondeu Dora, num tom de culpa – Eu nem acredito que ele... A Meredith deve estar devastada. E o Henry e a Samantha também.
- Falaste com algum deles? –perguntou Roy.
- Não... ainda não. Não tive coragem. Mas vou telefonar. Como é que eles estão?
- Algo abalados. Mas sobreviverão. Como nós sobrevivemos...
- E tu? Como te sentes? Eu sei que ele era como um irmão para ti.
- Eu... também sobreviverei.
- Pai... sabes que se quisesses poderias vir morar conosco. Temos espaço, e assim passarias mais tempo comigo e com os teus netos. Tenho medo que te sintas demasiado sozinho naquela casa.
- Obrigado Dora, mas aquela é a minha casa. Não te preocupes comigo. Eu estou bem. Obrigado pelo jantar.
Roy despede-se da filha dando-lhe um beijo na testa, e mergulha de novo na fria noite londrina.
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