Roy Spencer desperta repentina e bruscamente, dando por si prostrado no seu leito matrimonial onde dorme sozinho todas as noites, desde que a sua mulher faleceu há alguns anos atrás. Durante alguns segundos, sente uma franca dificuldade em respirar. Sem dúvida, tratou-se apenas de um pesadelo, algo a que Roy está certamente habituado.No entanto, existem diferentes tipos de pesadelo. Alguns são rápidos e muitas vezes nem nos lembramos deles quando acordamos. Outros, chegam a ser tão intensos que parecem verdadeiros,como se acontecessem realmente. O pesadelo que havia apenas despertado Roy pertencia sem dúvida à segunda classe descrita. Ainda com o pulso acelerado, e com uma ou outra gota de suor a escorrer-lhe pela face, Roy olha para o relógio na sua mesa de cabeceira. São quatro e meia da manhã, mais precisamente quatro horas e trinta e seis minutos.
Incapaz de voltar a adormecer, Roy decide levantar-se e começar o seu dia. No exterior, as ruas de Londres estão ainda desertas e permanecem cobertas pelo manto da noite.
Como todas as manhãs, Roy senta-se sozinho na sua cozinha e consome a primeira refeição do dia: torradas com marmelada de laranja e uma chávena de chá com uma colher de açúcar e algumas gotas de leite. Normalmente escuta a rádio enquanto come, para mitigar a solidão, mas desta vez ainda é cedo demais para isso. O relógio pendurado na parede da cozinha marca cinco horas e três minutos. Come portanto em silêncio, tentando esquecer o terrível pesadelo que o levou a acordar antes da hora. Apenas termina a refeição, lava a loiça rapidamente, e prepara-se para tomar o seu banho matinal.
Liga o chuveiro e a água quente começa a correr. Lentamente o vapor embacia o espelho, tornando o seu reflexo menos nítido. Despe o seu pijama e mergulha na morna torrente de água. É uma sensação agradável, que lhe permite relachar-se durante alguns instantes. O único som audível é o da água caindo, abafando momentaneamente os pensamentos negativos.
Quando termina o seu banho, sai do chuveiro e seca-se com uma toalha vermelha. O espelho está embaciado mas ainda assim consegue ver o seu reflexo, embora pouco nítido. O seu corpo nu e flácido fá-lo recordar uma vez mais, para o seu pesar, o pesadelo que o despertou essa madrugada. O seu próprio corpo envelhecido e destapado fê-lo recordar o corpo do amigo, primeiro coberto de suor e depois de sangue.
Incomodado, Roy tapa o seu corpo com a toalha vermelha e dirigi-se ao seu dormitório, onde se veste para sair de casa. A sua indumentária é simples e austera, sem deixar de ser elegante. Calças pretas, camisa aos quadros, cinzentos e azuis, blusa de lã cinzenta, e por cima uma longa gabardine de um cinzento escuro, quase preto.
O dormitório de Roy está localizado no segundo andar da casa. Desce as escadas até ao primeiro andar e prepara-se para sair. Lá fora, ainda é noite, embora esteja quase a amanhecer. O relógio no pulso de Roy revela que são seis horas e trinta e dois minutos.
Como todas as manhãs, Roy sai de casa cedo, disposto a realizar a sua caminhada matinal. Nesta altura do ano, em pleno Inverno, o Sol não se aventura todavia a mostrar-se aos ingleses, e o ar gelado contorna as vestimentas mais calorosas de forma a fazer gelar os corpos dos viandantes. Ainda assim, Roy Spencer não desiste de fazer a sua caminhada, e enfrenta o frio da manhã londrina de forma estóica, como se esperaria de um verdadeiro Inglês.
Na verdade nesta manhã especificamente, o frio, embora intenso,não chega a incomodar realmente o velho Roy Spencer. De certa forma, o ar gelado que invade os seus pulmões cada vez que inspira contribui para tornar o momento mais real, afastando-o do mundo dos sonhos que o persegue todavia. A cada passo Roy procura sacudir a visão do seu amigo, nu, sentado naquela cadeira naquela sala sombria, coberto de sangue. Procura esquecer aquele olhar aterrorizador, penetrante. Procura esquecer as palavras por ele proferidas,enigmáticas. Mas não consegue, apesar dos seus esforços, afastar tais pensamentos da sua mente. ‘Deves fazê-lo’ vaticinou o fantasma. ‘Mas fazer o quê?’, pensava Roy, contra a sua vontade.
Como de costume, Roy compra o jornal e propoem-se a lê-lo no café que frequenta habitualmente pelas manhãs.
- Um “caffe latte” por favor.
- Como sempre... Está tudo bem Roy? Parece um pouco cansado esta manhã. – A jovem atrás do balcão, uma atraente loira aparentando estar na casa dso trinta, servia o café a Roy quase todas as manhãs desde que trabalhava no pequeno café de Londres, há já um bom número de anos. O seu nome era Tatiana e tinha imigrado para a Inglaterra da sua Lituania natal há quase uma década atrás.
Roy apresentava, de fato, uma aparência cansada nessa manhã.
-Estou bem, obrigado... Não dormi muito bem esta noite, culpa de alguns pesadelos. Nada demais. - respondeu Roy.
- Oh... é horrível quando isso acontece. Que tipo de pesadelo? – perguntou Tatiana.
- Não me lembro exatamente... provavelmente era alguma fantasia estúpida. – mentiu Roy, que não estava interessado em contar o seu pesadelo a ninguém, e muito menos à jovem à sua frente. – Vou me sentar. –disse, dando por terminada a breve conversa.
- Oh, claro, pode se sentar e eu levarei o seu “caffe latte” à sua mesa em seguida.
Esperando pelo seu “caffe latte” , Roy folheia as páginas do “The Guardian”. A manchete do dia está dedicada ao colapso financeiro da Grécia, e as primeiras paginas tratam desse assunto assim como, de forma mais genérica, do falhanço económico da “zona Euro”.
-Bom dia velho Roy.
-Bom dia velho Steven, como te encontras hoje?
Roy reconheceu o homem em pé em frente da sua mesa de imediato. Steven Lloyd era um velho conhecido de Roy Spencer. Ambos eram velhos e conscientes disso, e costumavam provocar-se mutuamente quando se encontravam. Tal tinha se tornado uma espécie de rotina para ambos, que frequentavam o mesmo café pelas manhãs.
- A julgar pelo teu aspeto, melhor do que tu. Espero que não te importes que me sente contigo.- disse Steven, sentando-se sem grande cerimónia na mesma mesa de Roy.
- Não, esteja á vontade. Esta noite não dormi muito bem... suponho que se nota.
- Estaria a mentir se dissesse que não. Porquê, o que é que aconteceu? –perguntou Steven.
São interrompidos pela jovem Tatiana que lhes traz as bebidas.
- Um “caffe latte” para si Roy, e um “expresso” para si Steven. – diz Tatiana colocando as bebidas em cima da mesa.
- Obrigado.
-Obrigado Tatiana.
De nada. Se quiserem mais alguma coisa basta chamar.
A jovem afasta-se da mesa e volta ao balcão. Os dois homens retomam a sua conversa.
- Dizias que não dormiste bem esta noite. Qual foi a causa?
-Há dois dias atrás... um bom amigo faleceu. Desde então, não tenho conseguido dormir bem. Ontem tive um pesadelo... Sonhei com ele.
- Sinto muito. Eu conhecia-o?
- Não. Não creio. Era provavelmente o meu melhor amigo. Servimos juntos durante muitos anos. O seu nome era Edward Joyce.
- Entendo. Como é que ele morreu?... Espero que a pergunta não te incomode.
- Não... ele se suicidou.
Steven não conseguiu disfarçar o seu ar chocado. Um suicídio não é propriamente algo fora do comum, no que diz respeito a causas de morte, mas é, de alguma maneira, visto como algo ainda mais trágico do que um óbito produzido por causas naturais ou acidentes.
- Entendo... – limita-se a dizer Steven inicialmente. Alguns instantes depois, no entanto pergunta – Sabes porquê?
- Porque é que ele se suicidou?
-Uhum... – murmura Steven, confirmando o significado da pergunta.
- Não sei... mas na nossa idade...
-Já alguma vez... pensaste nisso?
- Não poderia dizer-te que nunca refleti sobre essa possibilidade. –responde Roy.
- Eu... sei que ás vezes é difícil. Mas chegar a fazer algo assim Roy... acho até que é contra a doutrina Cristã...
- A doutrina Cristã... Se tivesses visto o que eu vi ao longo da minha vida Steven... talvez acreditasses menos em Deus, em anjos, no céu... talvez acreditasses menos em todas essas coisas.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Roy Spencer # 2
Ele percorre um longo corredor, à sua volta não existe senão a escuridão. Estende os braços, e sente como as suas mãos tocam as paredes, nos seus dois flancos. Continua a caminhar, lentamente, sem conhecer o seu destino,sem saber o que encontrará ao final do corredor. Escuta o ecoar dos seus passos, o ruído produzido pelo contacto entre os seus sapatos e o chão de madeira. Caminha com os braços abertos, as pontas dos seus dedos tocando a parede áspera levemente.
Mais alguns passos e eis que começa a vislumbrar uma tênue luz à sua frente. O corredor termina finalmente, desembocando numa sala ampla, pouco iluminada. Ao centro, um homem está sentado numa cadeira, de costas para Roy, que se aproxima lentamente. Roy reconhece o homem sentado na cadeira de imediato, assim que olha para o seu rosto de frente. Os seus olhos azuis, injectados de sangue, fixam Roy intensamente. Expressam uma profunda agonia, um medo que gela o sangue. A sua face, habitualmente serena, é desfigurada por uma angústia que não pode ser expressada por palavras. Os seus cabelos, brancos e parcos, colam-se à sua nuca e à sua testa, graças ao suor que todo o seu corpo exala. O homem, sentado na cadeira de madeira, está nu dos pés à cabeça. A sua nudez revela um corpo esguio e frágil, deteriorado pelos longos anos de existência. Flácido, húmido e assustado, o homem fixa Roy Spencer sem dizer uma palavra ou mover um dedo, apenas tremendo ligeiramente, talvez de frio ou simplesmente de aflição.
- Edward?... O que é que aconteceu? Qual é o significado disto?... – pergunta Roy Spencer, incapaz de entender a situação.
Inicialmente, o ancião permanece imutável, sem proferir uma palavra, ou fazer um gesto. Apenas olha para Roy fixamente, transmitindo uma angústia tremenda, durante apenas alguns segundos, que no entanto parecem durar uma eternidade para Roy. Por fim, levanta um dos braços lentamente, e aponta na direção de Roy,sem deixar de olhá-lo fixamente nos olhos. Roy repara que o homem não pisca os olhos, nem uma única vez,o que lhe confere um aspecto ainda mais aterrorizador e sobrenatural.
-Tu...- diz, apontando na direção de Roy – Deves fazê-lo.
- Fazer o quê? –pergunta Roy – Fazer o quê Edward?
-Tu... sabes. –responde Edward, ainda apontando para Roy.
-Eu... eu não sei. O que é que eu devo fazer?
-Tu sabes...
Edward abaixa o braço lentamente enquanto a expressão nos seus olhos torna-se vazia, como se a sua alma o tivesse abandonado repentinamente. Aterrorizado, Roy observa como os olhos de Edward, já antes vermelhos, adquirem uma tonalidade escarlate mais e mais intensa, até que o sangue de Edward começa a brotar das suas cavidades oculares em um primeiro instante e, em seguida, de todos os poros do seu corpo. A figura de Edward dissipa-se então numa torrente escarlate que inunda a sala e sufoca Roy que se vê envolto uma vez mais na mais profunda escuridão.
Mais alguns passos e eis que começa a vislumbrar uma tênue luz à sua frente. O corredor termina finalmente, desembocando numa sala ampla, pouco iluminada. Ao centro, um homem está sentado numa cadeira, de costas para Roy, que se aproxima lentamente. Roy reconhece o homem sentado na cadeira de imediato, assim que olha para o seu rosto de frente. Os seus olhos azuis, injectados de sangue, fixam Roy intensamente. Expressam uma profunda agonia, um medo que gela o sangue. A sua face, habitualmente serena, é desfigurada por uma angústia que não pode ser expressada por palavras. Os seus cabelos, brancos e parcos, colam-se à sua nuca e à sua testa, graças ao suor que todo o seu corpo exala. O homem, sentado na cadeira de madeira, está nu dos pés à cabeça. A sua nudez revela um corpo esguio e frágil, deteriorado pelos longos anos de existência. Flácido, húmido e assustado, o homem fixa Roy Spencer sem dizer uma palavra ou mover um dedo, apenas tremendo ligeiramente, talvez de frio ou simplesmente de aflição.
- Edward?... O que é que aconteceu? Qual é o significado disto?... – pergunta Roy Spencer, incapaz de entender a situação.
Inicialmente, o ancião permanece imutável, sem proferir uma palavra, ou fazer um gesto. Apenas olha para Roy fixamente, transmitindo uma angústia tremenda, durante apenas alguns segundos, que no entanto parecem durar uma eternidade para Roy. Por fim, levanta um dos braços lentamente, e aponta na direção de Roy,sem deixar de olhá-lo fixamente nos olhos. Roy repara que o homem não pisca os olhos, nem uma única vez,o que lhe confere um aspecto ainda mais aterrorizador e sobrenatural.
-Tu...- diz, apontando na direção de Roy – Deves fazê-lo.
- Fazer o quê? –pergunta Roy – Fazer o quê Edward?
-Tu... sabes. –responde Edward, ainda apontando para Roy.
-Eu... eu não sei. O que é que eu devo fazer?
-Tu sabes...
Edward abaixa o braço lentamente enquanto a expressão nos seus olhos torna-se vazia, como se a sua alma o tivesse abandonado repentinamente. Aterrorizado, Roy observa como os olhos de Edward, já antes vermelhos, adquirem uma tonalidade escarlate mais e mais intensa, até que o sangue de Edward começa a brotar das suas cavidades oculares em um primeiro instante e, em seguida, de todos os poros do seu corpo. A figura de Edward dissipa-se então numa torrente escarlate que inunda a sala e sufoca Roy que se vê envolto uma vez mais na mais profunda escuridão.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Roy Spencer # 1
Amigos e familiares prestam uma última homenagem a um bom homem, que já não se encontra mais entre eles. É sempre duro, quando um ente querido nos deixa, principalmente quando é para sempre. Dele não resta muito mais, apenas um corpo que se decompoem lentamente dentro do caixão em que agora se encontra. O seu espírito já partiu rumo a uma outra parte. Aqui na terra ficam aqueles que ele conheceu em vida, e que agora choram a sua perda, amparando-se mutuamente, dedicando-lhe este digno ritual funerário.
- Estamos aqui hoje reunidos para prestar uma última homenagem a Edward Joyce, pai, esposo, amigo... - dizia o padre, cabelos grisalhos empapados pela chuva que cai forte, semblante sério a condizer com a ocasião, voz grave, própria de um bom orador. - ... Eu não conheci Edward pessoalmente, mas ao olhar para os vossos rostos, e ao ver o sofrimento que transmitem, é-me evidente que foi uma pessoa que marcou de forma positiva aqueles ao seu redor. Consta-me que era um pai de família, um bom cristão e que dedicou a sua vida a proteger os seus co-cidadãos. No entanto, gostaria que um de vós aqui presentes, ou inclusive mais do que um, pudésseis dizer algumas palavras a respeito deste homem,que conheceis certamente melhor do que eu que nunca o conheci enquanto era vivo.
É então que a viúva toma a palavra. Está vestida de negro dos pés à cabeça. Algumas lágrimas escorrem discretas pela sua face, camufladas entre as gotas de chuva. Aqui, diante destas pessoas, algumas mais próximas que outras, ela sente-se sozinha e vulnerável.
-Obrigado a todos vocês por estarem aqui hoje. Certamente, Edward teria ficado contente por tantas pessoas queridas terem decidido vir despedir-se dele, nesta última e derradeira oportunidade... – A voz dela treme um pouco, mas é bem audível para todos, é clara e comovente.Tanto as suas palavras, como o seu semblante e a sua postura são estóicos, como se espera de uma matrona Inglesa. Mas os seus olhos não escondem a tristeza que se apoderou do seu espírito, e a dor que sente é transmitida, sutilmente é certo, pela sua voz séria. – Eu estive casada com o Edward durante 36 anos. Passei mais anos da minha vida casada com ele do que solteira.Ter de dizer-lhe adeus, agora, e assim... é a coisa mas difícil que eu já tive que fazer na minha vida. Eu não sei porque é que ele decidiu deixar-nos desta forma, penso que nunca o saberei realmente...mas não posso dizer que me arrependo de ter feito tudo o que fiz. Sinto-me uma mulher afortunada por ter tido a oportunidade de conhecê-lo, e por ter construído uma família junto com ele. Os nossos filhos, Henry e Samantha, que estão aqui hoje, são o nosso maior legado. Eu estou orgulhosa deles e sei que o James também estava. Seja onde for que ele esteja agora, eu espero que ele esteja bem, e sei que algum dia iremos nos encontrar outra vez.
As palavras da viúva são comoventes. O seu discurso foi breve, mas elegante, adequado à situação. Agora é a vez do filho, que fala também em nome da irmã. As suas palavras são mais duras, menos condencendentes do que as da sua mãe. Ele não é tão compreensivo.
- Desde que eu me consigo lembrar, desde que eu tenho uso da razão, desde criança, eu sempre tive o meu pai na mais alta das considerações. Ele era, sem dúvida, um homem severo. Não obstante, ele era também um homem justo. Ou pelo menos, assim pensava. – Detém-se um momento. Repara como a sua mãe lhe lança um olhar de desaprovação. Abana também a cabeça horizontalmente, indicando-lhe que deve mudar o tom do seu discurso. Ele no entanto não obedece.
- Durante toda a sua vida, o meu pai foi um homem honrado. Como agente da Polícia, a sua conduta foi irrepreensível. Como marido, foi sempre fiel. Como chefe de família, sempre nos protegeu, educou, alimentou e vestiu.E no entanto, neste último dia,nesta despedida final, as suas últimas ações não me deixam chorar a sua morte sem mágoa. Não posso falar ante vós orgulhoso, de um homem cuja memória é imaculada. Quão bizarro e ignóbil fim ele escolheu para si mesmo. Que destino egoísta, impróprio de um homem honrado.Estas são as últimas palavras que dirijo ao meu pai. São palavras severas mas justas, tal como ele me ensinou a falar.
O discurso inflamado do jovem Edward propicia o pronto da mãe e da irmã,lembradas assim publicamente daquilo que procuravam esquecer. Daquilo que não podem entender e não conseguem realmente, na sua revolta, perdoar. Certamente os seus sentimentos são compreensíveis, como são razoáveis e normais. De entre os presentes, familiares, amigos e colegas, alguns estariam mais de acordo com o jovem Henry do que outros. Tomo por último a palavra um destes últimos, Roy Spencer, colega e amigo de Edward Joyce.
- Quando eu e o James nos conhecemos, tínhamos ambos acabado de ingressar na Polícia. Éramos jovens e idealistas.Ambos éramos ambiciosos, e queríamos servir a sociedade,honrar a lei e preservar a ordem. Depressa nos tornamos bons amigos. – Os cabelos cinzentos indicavam uma idade avançada, assim como as rugas que marcavam o seu rosto.Alguns anos atrás certamente teria sido um rosto bonito,os seus rasgos eram elegantes, a sua face pálida, os seus olhos grandes e azuis. Mesmo apesar da idade, a sua figura era todavia imponente. Era um homem alto, de porte altivo. A sua voz era grave e firme. - Durante quase quatro décadas, eu e Edward servimos juntos a Inglaterra. Como o seu filho Henry o disse, a conduta de James foi, durante todos estes anos, tanto quanto sei, irreprensível. Nunca conheci um homem mais honesto ou corajoso. Como colega, foi exemplar. Como pessoa, não era um amigo, era um irmão. Não de sangue, mas por escolha. Estava lá quando o James conheceu a Meredith. Estava lá quando se casaram. Presenciei o nacimento do primeiro filho deles, o Henry. Vi quando James o segurou pela primeira vez nos seus braços... nunca o tinha visto tão contente antes. – disse, olhando para Henry, que não resistiu a desviar o olhar. – Também estava presente quando a sua filha nasceu, a Samantha.- olhou desta feita para ela, que mais uma vez deixava cair algumas lágrimas. – Não havia nada para James mais importante do que a família, e eu sei que ele estava orgulhoso dos seus filhos, e que amava a sua mulher.Quando eu recebi a notícia da sua morte, fiquei surpreendido sim, e confuso também... e entendo que as suas ações possam ter causado tristeza e provocado a raiva daqueles que mais o amavam. – uma vez mais fixou Henry, que desta vez continuou olhando-o nos olhos. – Mas existem certos aspetos da condição humana que só podem ser totalmente entendidos quando são vividos. Um jovem, com toda a sua vida por diante pode ter dificuldade em entender certas coisas que, para um ancião como eu, por exemplo, são perfeitamente evidentes... Quando eu deixei a polícia, há alguns anos atrás, fi-lo com satisfação. Depois de décadas de serviço, em que presenciei coisas horríveis, em que investiguei os crimes mais hediondos, que me fizeram contemplar a parte mais sombria do espírito humano, a idéia de deixar tudo isso para trás e viver uma vida calma e feliz era extremamente atraente. E de fato, as minhas primeiras semanas depois de deixar a polícia foram boas. E no entanto, à medida que o tempo foi passando, fui me deparando com uma outra realidade.Quanto mais tempo passava, maior a dificuldade para ocupar os meus dias. Percebi então que aquilo que dava realmente sentido à minha vida era a minha profissão. Tornou-se então claro para mim que todas aquelas décadas eu tinha existido para servir a lei e a justiça. Após algum tempo, a sensação de inutilidade que me invadia era tão forte que alguns dias praticamente não tinha vontade de sair da cama. Suspeito que James passou pela mesma coisa... Gostaria de ter ajudá-lo antes, estar mais presente, partilhar com ele esta carga, mas agora é tarde demais. Depois de uma certa idade, cada dia que passa sentimos a morte que se aproxima. E, como sinais da desgraça eminente, vemos como o nosso corpo, e até mesmo a nossa mente, vão perdendo, lenta mas inexoravelmente, o fulgor de outrora. Eu sei como é duro envelhecer e deixar a minha profissão, e como tal entendo como ele se devia sentir. Não quero desculpá-lo, pois não creio que seja necessário.Todos os homens são livres de decidir como querem viver e morrer na minha opinião. Mas como seu melhor amigo, e alguém que o compreendia, me senti na obrigação de tentar explicar as suas últimas ações, assim como louvar as anteriores. Adeus velho amigo, descansa em paz.
Seguiu-se um breve silêncio, após o qual o funeral prosseguiu. Finalmente, o caixão foi engolido pela terra molhada, onde residiria para todo o sempre. Os familiares e amigos presentes começaram a ir embora, após despedir-se uma última vez de James Joyce, marido, pai, amigo...
Antes de partir, Roy Spencer achou por bem despedir-se da viúva Meredith Joyce, que estava acompanhada pelos seus dois filhos, e que recebia os últimos pesames de algumas outras pessoas, também elas prestes a ir embora.
- Sinto muito Meredith. – disse simplesmente, quando finalmente pôde obter alguma privacidade.-olhou então primeiro para a filha e depois para o filho, Henry, mas não disse nada, apenas moveu ligeiramente a cabeça para a frente, um gesto consolador.
- Bonito discurso.- disse Henry. O tom de voz não era abertamente irónico, mas os seus olhos refletiam uma certa raiva, dirigida ou ao seu defunto pai ou talvez mesmo a Roy.
Roy não respondeu, mas quem falou foi a Meredith.
- Obrigado pela tua presença Roy, e pelas tuas palavras. Sempre foste um bom amigo.
Roy teve a impressão que ela não era completamente sincera. As suas palavras eram gentis, mas o seu olhar duro e a sua expressão grave. De todas formas, aqueles eram momentos difíceis para ela, mais do que para qualquer outro. Roy lembrava-se de como se tinha sentido quando a sua mulher tinha morrido apenas alguns anos antes. Ele conhecia aquela sensação, de estar só no mundo, chamado a enfrentar o fim sozinho. Uma vez mais prestou os seus pêsames, depediu-se e afastou-se, lentamente,caminhando sob a chuva pesada e o céu cinzento de Londres, rumo à sua solitária morada em Kensington.
- Estamos aqui hoje reunidos para prestar uma última homenagem a Edward Joyce, pai, esposo, amigo... - dizia o padre, cabelos grisalhos empapados pela chuva que cai forte, semblante sério a condizer com a ocasião, voz grave, própria de um bom orador. - ... Eu não conheci Edward pessoalmente, mas ao olhar para os vossos rostos, e ao ver o sofrimento que transmitem, é-me evidente que foi uma pessoa que marcou de forma positiva aqueles ao seu redor. Consta-me que era um pai de família, um bom cristão e que dedicou a sua vida a proteger os seus co-cidadãos. No entanto, gostaria que um de vós aqui presentes, ou inclusive mais do que um, pudésseis dizer algumas palavras a respeito deste homem,que conheceis certamente melhor do que eu que nunca o conheci enquanto era vivo.
É então que a viúva toma a palavra. Está vestida de negro dos pés à cabeça. Algumas lágrimas escorrem discretas pela sua face, camufladas entre as gotas de chuva. Aqui, diante destas pessoas, algumas mais próximas que outras, ela sente-se sozinha e vulnerável.
-Obrigado a todos vocês por estarem aqui hoje. Certamente, Edward teria ficado contente por tantas pessoas queridas terem decidido vir despedir-se dele, nesta última e derradeira oportunidade... – A voz dela treme um pouco, mas é bem audível para todos, é clara e comovente.Tanto as suas palavras, como o seu semblante e a sua postura são estóicos, como se espera de uma matrona Inglesa. Mas os seus olhos não escondem a tristeza que se apoderou do seu espírito, e a dor que sente é transmitida, sutilmente é certo, pela sua voz séria. – Eu estive casada com o Edward durante 36 anos. Passei mais anos da minha vida casada com ele do que solteira.Ter de dizer-lhe adeus, agora, e assim... é a coisa mas difícil que eu já tive que fazer na minha vida. Eu não sei porque é que ele decidiu deixar-nos desta forma, penso que nunca o saberei realmente...mas não posso dizer que me arrependo de ter feito tudo o que fiz. Sinto-me uma mulher afortunada por ter tido a oportunidade de conhecê-lo, e por ter construído uma família junto com ele. Os nossos filhos, Henry e Samantha, que estão aqui hoje, são o nosso maior legado. Eu estou orgulhosa deles e sei que o James também estava. Seja onde for que ele esteja agora, eu espero que ele esteja bem, e sei que algum dia iremos nos encontrar outra vez.
As palavras da viúva são comoventes. O seu discurso foi breve, mas elegante, adequado à situação. Agora é a vez do filho, que fala também em nome da irmã. As suas palavras são mais duras, menos condencendentes do que as da sua mãe. Ele não é tão compreensivo.
- Desde que eu me consigo lembrar, desde que eu tenho uso da razão, desde criança, eu sempre tive o meu pai na mais alta das considerações. Ele era, sem dúvida, um homem severo. Não obstante, ele era também um homem justo. Ou pelo menos, assim pensava. – Detém-se um momento. Repara como a sua mãe lhe lança um olhar de desaprovação. Abana também a cabeça horizontalmente, indicando-lhe que deve mudar o tom do seu discurso. Ele no entanto não obedece.
- Durante toda a sua vida, o meu pai foi um homem honrado. Como agente da Polícia, a sua conduta foi irrepreensível. Como marido, foi sempre fiel. Como chefe de família, sempre nos protegeu, educou, alimentou e vestiu.E no entanto, neste último dia,nesta despedida final, as suas últimas ações não me deixam chorar a sua morte sem mágoa. Não posso falar ante vós orgulhoso, de um homem cuja memória é imaculada. Quão bizarro e ignóbil fim ele escolheu para si mesmo. Que destino egoísta, impróprio de um homem honrado.Estas são as últimas palavras que dirijo ao meu pai. São palavras severas mas justas, tal como ele me ensinou a falar.
O discurso inflamado do jovem Edward propicia o pronto da mãe e da irmã,lembradas assim publicamente daquilo que procuravam esquecer. Daquilo que não podem entender e não conseguem realmente, na sua revolta, perdoar. Certamente os seus sentimentos são compreensíveis, como são razoáveis e normais. De entre os presentes, familiares, amigos e colegas, alguns estariam mais de acordo com o jovem Henry do que outros. Tomo por último a palavra um destes últimos, Roy Spencer, colega e amigo de Edward Joyce.
- Quando eu e o James nos conhecemos, tínhamos ambos acabado de ingressar na Polícia. Éramos jovens e idealistas.Ambos éramos ambiciosos, e queríamos servir a sociedade,honrar a lei e preservar a ordem. Depressa nos tornamos bons amigos. – Os cabelos cinzentos indicavam uma idade avançada, assim como as rugas que marcavam o seu rosto.Alguns anos atrás certamente teria sido um rosto bonito,os seus rasgos eram elegantes, a sua face pálida, os seus olhos grandes e azuis. Mesmo apesar da idade, a sua figura era todavia imponente. Era um homem alto, de porte altivo. A sua voz era grave e firme. - Durante quase quatro décadas, eu e Edward servimos juntos a Inglaterra. Como o seu filho Henry o disse, a conduta de James foi, durante todos estes anos, tanto quanto sei, irreprensível. Nunca conheci um homem mais honesto ou corajoso. Como colega, foi exemplar. Como pessoa, não era um amigo, era um irmão. Não de sangue, mas por escolha. Estava lá quando o James conheceu a Meredith. Estava lá quando se casaram. Presenciei o nacimento do primeiro filho deles, o Henry. Vi quando James o segurou pela primeira vez nos seus braços... nunca o tinha visto tão contente antes. – disse, olhando para Henry, que não resistiu a desviar o olhar. – Também estava presente quando a sua filha nasceu, a Samantha.- olhou desta feita para ela, que mais uma vez deixava cair algumas lágrimas. – Não havia nada para James mais importante do que a família, e eu sei que ele estava orgulhoso dos seus filhos, e que amava a sua mulher.Quando eu recebi a notícia da sua morte, fiquei surpreendido sim, e confuso também... e entendo que as suas ações possam ter causado tristeza e provocado a raiva daqueles que mais o amavam. – uma vez mais fixou Henry, que desta vez continuou olhando-o nos olhos. – Mas existem certos aspetos da condição humana que só podem ser totalmente entendidos quando são vividos. Um jovem, com toda a sua vida por diante pode ter dificuldade em entender certas coisas que, para um ancião como eu, por exemplo, são perfeitamente evidentes... Quando eu deixei a polícia, há alguns anos atrás, fi-lo com satisfação. Depois de décadas de serviço, em que presenciei coisas horríveis, em que investiguei os crimes mais hediondos, que me fizeram contemplar a parte mais sombria do espírito humano, a idéia de deixar tudo isso para trás e viver uma vida calma e feliz era extremamente atraente. E de fato, as minhas primeiras semanas depois de deixar a polícia foram boas. E no entanto, à medida que o tempo foi passando, fui me deparando com uma outra realidade.Quanto mais tempo passava, maior a dificuldade para ocupar os meus dias. Percebi então que aquilo que dava realmente sentido à minha vida era a minha profissão. Tornou-se então claro para mim que todas aquelas décadas eu tinha existido para servir a lei e a justiça. Após algum tempo, a sensação de inutilidade que me invadia era tão forte que alguns dias praticamente não tinha vontade de sair da cama. Suspeito que James passou pela mesma coisa... Gostaria de ter ajudá-lo antes, estar mais presente, partilhar com ele esta carga, mas agora é tarde demais. Depois de uma certa idade, cada dia que passa sentimos a morte que se aproxima. E, como sinais da desgraça eminente, vemos como o nosso corpo, e até mesmo a nossa mente, vão perdendo, lenta mas inexoravelmente, o fulgor de outrora. Eu sei como é duro envelhecer e deixar a minha profissão, e como tal entendo como ele se devia sentir. Não quero desculpá-lo, pois não creio que seja necessário.Todos os homens são livres de decidir como querem viver e morrer na minha opinião. Mas como seu melhor amigo, e alguém que o compreendia, me senti na obrigação de tentar explicar as suas últimas ações, assim como louvar as anteriores. Adeus velho amigo, descansa em paz.
Seguiu-se um breve silêncio, após o qual o funeral prosseguiu. Finalmente, o caixão foi engolido pela terra molhada, onde residiria para todo o sempre. Os familiares e amigos presentes começaram a ir embora, após despedir-se uma última vez de James Joyce, marido, pai, amigo...
Antes de partir, Roy Spencer achou por bem despedir-se da viúva Meredith Joyce, que estava acompanhada pelos seus dois filhos, e que recebia os últimos pesames de algumas outras pessoas, também elas prestes a ir embora.
- Sinto muito Meredith. – disse simplesmente, quando finalmente pôde obter alguma privacidade.-olhou então primeiro para a filha e depois para o filho, Henry, mas não disse nada, apenas moveu ligeiramente a cabeça para a frente, um gesto consolador.
- Bonito discurso.- disse Henry. O tom de voz não era abertamente irónico, mas os seus olhos refletiam uma certa raiva, dirigida ou ao seu defunto pai ou talvez mesmo a Roy.
Roy não respondeu, mas quem falou foi a Meredith.
- Obrigado pela tua presença Roy, e pelas tuas palavras. Sempre foste um bom amigo.
Roy teve a impressão que ela não era completamente sincera. As suas palavras eram gentis, mas o seu olhar duro e a sua expressão grave. De todas formas, aqueles eram momentos difíceis para ela, mais do que para qualquer outro. Roy lembrava-se de como se tinha sentido quando a sua mulher tinha morrido apenas alguns anos antes. Ele conhecia aquela sensação, de estar só no mundo, chamado a enfrentar o fim sozinho. Uma vez mais prestou os seus pêsames, depediu-se e afastou-se, lentamente,caminhando sob a chuva pesada e o céu cinzento de Londres, rumo à sua solitária morada em Kensington.
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