quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O Sonho

Sou uma pessoa como tantas outras, não possuo nenhuma qualidade que me faça destacar da multidão, não tenho nenhum talento, não sou particularmente bom a nenhum desporto e poucas coisas verdadeiramente interessantes aconteceram ao longo da minha vida. Suponho que se algum dia decidisse escrever uma autobiografia, ninguém teria o menor interesse em lê-la, e certamente não poderia recriminá-los por isso. A única coisa que me aconteceu digna de ser relatada, passou-se há alguns anos atrás, na Costa da Caparica. E mesmo assim, até hoje não sei se o que eu me lembro daquele dia aconteceu realmente ou não passou de um sonho.

Era verão, e nesse dia tinha decidido ir á praia com alguns amigos. Nunca fui um bom nadador, por isso não tinha o costume de me distanciar muito da costa quando ia á água. No entanto nesse dia em específico, talvez porque me sentisse especialmente temerário ou simplesmente por pura estupidez, decidi nadar até mais longe da costa, rumo ao mar aberto. Na verdade, não tinha intenção de me distanciar tanto da praia como acabei por fazer, mas ás vezes, quando se está a nadar de costas para a praia, é fácil perder a noção da distancia. O facto é que quando dei por mim estava já bastante longe da praia e por isso, como sabia que não era grande nadador, fiquei algo apreensivo. Portanto procedi imediatamente a nadar em direção á praia, onde vi as pessoas que agora pareciam quase do tamanho de formigas. Ainda assim, em circunstancias normais, mesmo sendo um nadador medíocre, ter-me-ia bastado nadar cerca de dez minutos em linha reta para voltar á praia. No entanto, como acontece com freqüência nas praias da Costa, a corrente naquele dia estava a puxar bastante em direção ao mar. De forma que apesar de nadar o mais rápido que podia durante quase quinze minutos, não parecia ter-me aproximado nada da praia. Comecei então a ficar realmente assustado, e comecei a pensar que talvez não conseguisse voltar á praia sem ajuda. Infelizmente, nenhum banhista tinha se afastado tanto da praia como eu, e portanto nem sequer tinha ninguém perto que me pudesse ajudar. Comecei então a nadar de forma ainda mais vigorosa, tentando ganhar o maior número de metros possíveis e aproximar-me pelo menos o suficiente para poder pedir auxílio. Consegui aproximar-me da praia, mas tive que nadar pelo menos dez minutos e fazer um esforço enorme para o conseguir. Como eu não sou um bom nadador, e nem mesmo um bom atleta, nessa altura já estava tão exausto que mal conseguia respirar. Comecei a gritar e a agitar os braços, na esperança que alguém me visse, porque já não conseguia nadar mais nem um metro. Estava exausto, e começava a temer seriamente pela minha vida. A cada segundo que passava as minhas chances de ser resgatado diminuíam um pouco mais, porque sentia como as forças me abandonavam e, agora que já mal conseguia dar braçadas, a corrente começava a arrastar-me outra vez para o mar aberto.

Estava agora verdadeiramente em pânico e completamente exausto. Não tinha já sequer força suficiente para lutar contra a corrente. Esforçava-me em agitar os braços no ar e gritar o mais alto que conseguia, tentando atrair a atenção dos banhistas e, quem sabe, de um salva-vidas. Achava que , depois de todos os meus esforços, dos meus gestos frenéticos e gritos, alguém teria me visto. Senão, pelo menos os meus amigos teriam já nesta altura se dado conta de que eu já estava no mar há mais de meia-hora e teriam alertado o guarda salva-vidas. Sim, alguém viria resgatar-me em breve, só que talvez não me resgatassem a tempo pensei. Estava agora tão exausto que já mal conseguia agitar os braços, e tinha que me esforçar ao máximo para manter-me á superfície. Sentia como era arrastado cada vez mais para o mar aberto e como cada vez tinha menos forças para resistir á força da corrente. Já não conseguia manter-me á superfície. Via gente á distância, embora talvez tivesse a alucinar, e achava que vinham socorrer-me, mas a praia parecia cada vez mais distante. Já não me conseguia manter á superfície. Estava sem fôlego, os meus braços ardiam de cansaço e as minhas pernas doíam tremendamente devido ás cãibras. Afundava-me como um galeão espanhol nas profundezas do mar. Talvez nunca ninguém me encontraria. Agitava-me como se tivesse a ter um ataque epiléptico, mas só conseguia afundar-me mais e mais. Sentia como o oxigênio se terminava e não podia já ir á tona porque não tinha mais forças.      

Foi então que penetrei num outro mundo, ainda mais longínquo, de onde pensei nunca mais voltar. Descendi ás profundezas não só do mar, mas da própria existência de todos os seres. Já não tinha aquela sensação de falta de oxigênio que, alguns instantes antes, me atormentava de forma tão atroz. O pânico que tinha me dominado alguns segundos atrás, um pânico tão absoluto que não poderia descrever em palavras, tinha sido substituído por um sentimento de resignação. Por alguma razão inexplicável, tinha perdido até mesmo a vontade de voltar á tona e respirar. Era como se uma fosse sobrenatural me estivesse a atrair para o abismo mais profundo da terra, para o fundo dos mares, para os confins da existência. Á medida que me distanciava da superfície, menos necessitava de oxigênio, e mais á vontade estava debaixo de água. Era como se me tivessem crescido guelras e eu nem me tivesse dado conta. Enquanto continuava a minha descida, tornava-me mais consciente do imenso vazio que agora me rodeava, da escuridão absoluta do mar, da imensidão do oceano,  do silencio reinante nas trevas... Continuava a cair e a cair e a cair, num vazio que se estendia até ao infinito. Mas era uma queda suava, era como um explorador marino, viajando através dos abismos marítimos, decifrando os seus mistérios.

É difícil explicar como, naquela suave queda, rumo aos confins do universo, tudo o que eu tinha aprendido numa vida inteira na terra deixou de ter a menor importância, ou mesmo de fazer qualquer sentido. Cercado pela vastidão do mar, envolto nas trevas mais escuras, aturdido pelo silencio mais profundo, toda uma vida passada na terra, vinte e cinco anos de existência, deixaram de ter a menor importância Respirar ou não respirar, viver ou morrer, nada disso era minimamente relevante. E as memórias, as experiências vividas que eram uma parte tão relevante do meu caráter, dissolveram-se completamente nas águas negras que me cercavam. Sobrava apenas o mais essencial, chame-se-lhe alma, espírito ou essência. Navegava pelos mares escuros mais ligeiro do que havia sido jamais, reduzido ao mais essencial do meu ser, purgado de todas as coisas que haviam turbado a minha essência durante todos aqueles anos de vida.

Pensei que cairia para sempre, e que nunca chegaria ás profundezas porque os abismos por onde navegava eram infinitos. Mas talvez isso não fosse certo, porque a um certo ponto a escuridão deixou de ser absoluta como antes, e o silencio foi quebrado por sons que, ao principio eram tão baixos que não pude identificar de que se tratava, mas depois se intensificaram e pude perceber que estava a escutar uma espécie de canto. O som tornou-se progressivamente mais alto e nítido, dando a impressão que o que originava os sons se aproximava de mim. Também, á medida que o canto se tornava mais alto, o espaço ao redor de mim se tornava mais claro, até que comecei a vislumbrar um foco de luz, no horizonte que parecia vir na minha direção. Quando o pude escutar bem, percebi que o canto era o som mais extraordinário que eu jamais havia escutado. Era algo absolutamente maravilhoso, um som que não poderia originar de nenhuma criatura humana, nem de nenhum instrumento musical de origem terrestre. Era um canto belíssimo, que tinha dissipado as trevas e o frio que me envolviam. A sensação de perda que tinha me acompanhado na minha queda tinha desaparecido, e o medo tinha sido substituído por felicidade. Não se tratava de palavras, mas simplesmente de uma melodia, entoada por uma voz extraordinariamente doce mas ao mesmo tempo poderosa. Nem a mais bela melodia de Mozart poderia comparar-se com aquele canto sublime. Tinha uma qualidade divina, que não poderia ser imitada por nenhum homem ou mulher. Enquanto observava o foco de luz, que embora ainda fosse distante ia aumentando de intensidade a cada segundo, pude vislumbrar pela primeira vez a forma daqueles seres. Ao princípio pensei que se tratasse de apenas uma criatura, mas depois percebi que eram várias que nadavam na minha direção, surgindo das trevas longínquas, movendo-se graciosamente e emitindo aquele som fabuloso. Quanto mais se aproximavam melhor distinguia os seus traços. Eram sereias, tal como eu as tinha sempre imaginado. Rodeava-as uma luz intensa, que iluminava as águas sua volta. Nadavam graciosamente, apenas contorcendo o corpo, como golfinhos, de forma graciosa. As suas feições eram extraordinariamente belas, e nesse aspecto não as distinguiria de mulheres humanas, embora as sereias fossem todas excepcionalmente formosas. Os seus cabelos eram doirados, como se fossem feitos de puro ouro. Os olhos eram cinzentos, mas só reparei nisso quando estavam realmente perto de mim. Os seus corpos eram também extremamente bonitos, sendo que a parte superior era igual ao das mulheres humanas, mas a parte interior era uma cauda, cumprida e esguia, composta de escamas com uma cor-esmeralda. A visão daqueles seres era sem dúvida a coisa mais extraordinária que alguma vez tivesse presenciado.Eram tão belas, e tinham uma aparência tão divina, que não teria ousado resistir nem por um minuto aos seus desejos.

Quando finalmente se aproximaram o suficiente para que eu pudesse ver as suas caras claramente, e mesmo tocá-las se tivesse a ousadia necessária, começaram a nadar á minha volta. Não sei o seu número exacto, mas deviam ser pelo menos uma dúzia. Enquanto nadavam, de forma quase sincronizada á minha volta, pude também sentir o aroma que exalavam, que era o melhor cheiro que alguma vez tinha sentido. O seu canto divino ressoava chegava agora até aos confins da minha mente, e o seu encanto tinha me dominado por completo. Dançavam e nadavam e giravam á minha volta, roçando-me com as suas delicadas mãos e cantando de forma maravilhosa. A visão daqueles seres, de busto descoberto  cabelos doirados era deslumbrante. As suas caudas deixavam um rasto de cor esmeralda que cortava o mar, agora todo dourado, graças á luz emanada pelas sereias.

Duas sereias agarraram-me nas mãos e começaram a levar-me ainda mais para as profundezas, e as outras sereias nadaram ao nosso lado e atrás de nós. Continuamos a nadar durante algum tempo, até que eu comecei a vislumbrar alguma coisa que se erguia nas profundezas. Parecíamos finalmente ter chegado ao nosso destino. Tive a sensação de que a água se tornava mais quente á medida que avançávamos, e pouco a pouco a água passou de fria a morna e de morna a quente. Comecei a sentir-me desconfortável  tentei voltar para trás, mas as sereias continuaram a arrastar-me rumo ao que me parecia uma cidade de fogo, nas profundezas do mar.

Quanto mais nos aproximávamos mais quente se tornava a água, até tornar-se verdadeiramente insuportável. Mas embora estivesse agora a tentar voltar para trás com todas as minhas forças, nem sequer conseguia abrandar as sereias, que seguravam as minhas mãos com uma força sobre-humana. Antes as suas mão tinham me parecido suaves como ceda, mas agora eram duras como mármore. Tinham começado por guiar me gentilmente pelas profundezas do mar, mas agora puxavam-me contra a minha vontade e apesar do meu desespero. Gritava de dor mas os meus gritos eram abafados pelo canto das sereias, que agora não era mais belo e pacífico, mas tinha se transformado numa melodia épica e sinistra. Senti no meu peito um medo que nunca tinha sentido antes, nem sequer enquanto me afogava, e notei como a minha pele se dissolvia agora nas águas ferventes.       

Á minha frente erguia-se um palácio de fogo, tão grande que parecia entender-se eternamente. Mas não se tratava de uma construção como aquelas que se vêm no nosso mundo. Em vez de ser construído verticalmente, toda a construcção era como uma enorme parede no chão, e no meio havia um portão enorme. Era, como se eu pudesse ver um dos lados da estructura, mas o seu volume estivesse construído para além do fundo do abismo oceânico. Á medida que nos aproximamos, os imensos portões se abriram, e finalmente penetramos naquele sub-mundo, que existia para além dos confins do universo. Quando cruzamos os portões, as sereias abandonaram-me e voltaram para atrás, mas eu não conseguia fazer o mesmo embora tentasse. As águas tinham-se transformado em chamas, e eu agora queimava nos fogos do infra-mundo, sem poder mover-me, porque demônios agarravam as minhas pernas e puxavam-me para baixo. Á medida que avançávamos, pude ver como tantos homens e mulheres eram torturados pelos muitos demônios que habitavam o palácio infernal. Os meus gritos de dor uniam-se a milhares de gritos agonizantes, que ecoavam pelos salões daquele enorme mansão dos horrores.
Percebi então que não poderia estar em nenhum outro sítio que não fosse o mesmíssimo inferno.

Vi como demônios de aspecto atroz agora devoravam os meus membros, enquanto diabretes  me alfinetavam os olhos. Mas os meus membros cresciam outra vez, apenas para voltarem a ser devorados e os meus olhos regeneravam-se vezes sem conta para poderem voltar a ser furados.

Uma procissão de seres demoníacos guiou-me até uma sala, e ataram-me a uma mesa. Um ser diabólico com cornos pretos, pele vermelha e cauda de bode abriu as minhas entranhas com as suas garras afiadas, e comeu os meus intestinos enquanto eu me debatia, sem esperança de sucesso, tentando libertar-me.
A refeição durou quase eternamente, até que uma intensa luz debandou os demônios que me rodeavam, e vi como uma lança traspassava o corpo do diabo torturador. Então vi como pairava, sobre nós, um imponente cavaleiro, montado sobre um cavalo com enormes asas, brancas e imaculadas, erguendo um estandarte que não reconheci e pensei, pelo seu caráter algo andrógeno, e a julgar pelos cabelos, curtos e loiros reluzentes como o ouro, que talvez aquela fosse a mítica Joana de Arco transformada em anjo. Ajudou-me a montar no seu cavalo, e cavalgamos pelos corredores do inferno, ascendendo rumo á lua que se erguia no horizonte. Deixamos os corredores infernais e cruzamos o espaço negro, recheado de estrelas, até chegar ao mais belo jardim em todo o universo.

Fomos recebidos pó uma hoste de querubins, e de pessoas, todas elas formosas e nuas.
Fui apresentado, pela própria Joana, embora nunca me tivesse dito o seu nome, a anjos
sem sexo, a mitos homens e mulheres belos e inteligentes, todos na plenitude da sua juventude, e finalmente a homens ilustres que descansavam no céu depois de ter vivido vidas plenas e completas na terra. Despedi-me de Joana e entrei num castelo de vidro no topo de uma colina, e numa das salas do castelo vi como se reuniam o Rei Artur com os seus cavaleiros. Jantei com eles durante várias noites, desfrutando de banquetes na companhia de lendas e bebendo vinho durante serões inteiros enquanto escutava virgens tocando maravilhosamente a harpa. Ouvia as histórias que os cavaleiros contavam todas as noites sobre as suas aventuras imortais, e maravilha-me com a sua bravura e integridade.  Numa outra sala do castelo encontrei  Mohamed fumando chicha e sentei-me com ele, fumando e discutindo sobre religião. Muitas noites depois, cheguei a oura sala, onde vi Siddarta meditando num altar budista. Juntai-me a ele e tornei-me seu discípulo, e durante vários meses aprendi muitas coisas sobre os mistérios da existência com ele. Finalmente, desejei partir e conhecer o resto do universo e despedimo-nos.

Deixei o castelo de vidro, e abandonei o jardim do éden. Antes de partir, Buddha presenteou-me com um Cadillac e tomei uma auto-estrada cujo placar dizia “direção realidades paralelas”.  Percorri caminhos que não poderia começar a descrever na língua dos homens, sem que isso me parecesse um imenso sacrilégio. Viajei por essas estradas durante o que me pareceram milênios, rumo a destinos tão diversos como insignificantes. E numa dessas viagens, percorrendo uma estrada bem asfaltada e bem sinalizada no meu Cadillac vermelho, uma estrada que ligava o céu a um planeta onde todos os homens vivem vidas inteiras sem pensar no significado das mesmas e conseqüentemente sem pensar em Deuses ou entes similares, vi um homem com uma longa túnica branca e cabelos longos castanhos e ondulados que fazia o sinal que os homens modernos fazem quando querem boleia. Dei-lhe boleia e disse-me que tinha curiosidade por ver como seria uma existência sem religião e se os homens que viviam lá eram mais ou menos felizes que os homens que tinham um Deus a quem orar. Apresentou-se como Jesus Cristo, e viajamos juntos e até chegar a essa terra dos homens descrentes, e vivemos lá durante algum tempo até que finalmente nos aborrecemos. Então voltamos a fazer-nos à estrada e viajamos no nosso Cadillac vermelho até chegar a uma terra em que todos os homens viviam somente para a religião e para os seus Deuses, mas eventualmente lá também nos aborrecemos e voltamos para o céu.  De volta no céu, tomamos chá preto e fumamos chicha de sabor menta com Mohamed discutindo sobre qual era a terra mais aborrecida, aquela em que os homens viviam sem religião ou aquela em que os homens viviam somente para a religião.

Um dia, enquanto estávamos a discutir sobre o céu e o inferno, Jesus explicou-me que no céu todas as pessoas são felizes e no inferno todas as pessoas são infelizes, mas que mesmo assim ás vezes as pessoas que vivem no céu aborrecem-se e vão ao inferno passar algum tempo e quando voltam tudo é muito melhor do que quando se tinham ido embora.  E no inferno, onde na verdade não existe nenhum guarda, nenhuma vala, nenhum muro nem nenhumas grades que realmente os empeça de sair de lá para sempre, as pessoas infernais ás vezes deixam a sua morada eterna e viajam ao céu e outros mundos mas não se sentem cômodos e voltam ao inferno porque depois de morrer ninguém tem corpo, nem medo de morrer, nem ânsias de ser rico, e todos os prazeres não são suficientes para satisfazer uma eternidade de desejos e tudo o que resta é uma profunda e exacerbada consciência sobre a nossa natureza e a validez dos nossos atos.

Um dia deixei o castelo de vidro, onde tinha vivido com Jesus Cristo e Mohamed durante tanto tempo, e onde tinha estudado religião com Sidarta, e jantado com rei Artur e os cavaleiros da távola redonda, e não consegui encontrar o caminho de volta. Voltei então a fazer-me á estrada no meu Cadillac vermelho, até que cheguei a uma planície onde abundavam os búfalos, e onde viviam os índios americanos massacrados pelo homem branco. Juntei-me então a uma tribo de índios que tinham morrido há mais de dois séculos atrás e consumi Peyote com eles, e rezei aos seus magníficos deuses  e possuí as suas mulheres e compreendi o significado da vida de mil formas distintas numa sucessão de momentos que me pareceram uma eternidade.

Esta última é a derradeira memória que me resta daquele mundo, pois quando o ar entrou nos meus pulmões, os meus músculos voltaram a ativar-se, e nas pontas dos meus dedos senti comichão e soube que queriam voltar a mexer-se. Acordei então do meu sonho sem perceber onde estava e porque ali estava. Lentamente, comecei a recuperar os sentidos, e logo a minha memória. Senti o Sol a bater na minha cara e abri os olhos, vislumbrando um homem que se inclinava sobre mim. Á nossa volta acumulavam-se vários curiosos observadores, que se debruçavam sobre nós tentando perceber o que estava a acontecer. Quando se deram conta que eu estava vivo a sua expressão deixou de ser sombria e muitos começaram a gritar e a bater palmas.

O guarda salva vidas estava debruçado sobre mim, ainda com um ar sério, mas visivelmente aliviado. Percebi que ele estava a falar, e dirigia-se a mim, mas não consegui perceber na altura o que dizia, e os sons que saiam da boca dele chegavam a mim abafados e distorcidos. Reconhecia as palavras que ecoavam no ar, mas ainda não conseguia discernir totalmente a sua lógica, e muito menos formular uma resposta. Mesmo assim tentei falar, mas não consegui. Embora tivesse aberto os olhos, e pudesse ver como aquele homem me olhava, e como havia gente á nossa volta, ainda não tinha tido tempo suficiente para deixar totalmente a dimensão onde eu estava antes, e voltar plenamente á realidade. Via, mas não acreditava realmente no mundo onde agora me encontrava. No fundo, parte de mim ainda estava no país dos mortos, onde tinha passado mil anos. A ambulância estava a alguns metros e, com a ajuda do guarda salva-vidas, os enfermeiros colocaram-me numa maca e levaram-me até ela. As pessoas continuavam a aplaudir á volta, enquanto os enfermeiros me colocavam, ainda prostrado na maca, no interior do veículo. Enquanto ouvia as sirenes da ambulância recordei a viagem ao submundo das mentes que eu tinha empreendido. Tinham passado dez minutos nesta vida, mas eu sentia-me como se tivesse voltado de uma odisséia que demorou pelo menos mil anos, na qual naveguei pelo país dos mortos até esquecer-me de quem eu era e até finalmente regressar junto aos vivos. Durante horas deambulei ainda entre os dois mundos, recuperando a minha vida antiga, reaprendendo as palavras e os gestos dos homens da minha terra, reavendo as memórias da minha existência mortal. E ainda hoje me pergunto se aquilo que eu vivi nesse dia foi realidade ou sonho, e se algum dia voltarei a percorrer aquelas estradas intermináveis com Jesus Cristo sentado a meu lado num Cadillac vermelho.

2 comentários:

  1. Quanta imaginação...nem nos meus sonhos eu conseguiria ir tão longe! Parabéns, primo! Pode apostar pq vc tem talento.
    beijos
    Tainã

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  2. Obrigado prima. Fique atenta a proxima historia que saira dentro de uma semana.

    muitos beijos
    bruno

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