domingo, 19 de setembro de 2010

O Anjo Caído

Nessa altura ainda morava com os meus pais no seu apartamento em Paris, onde fui criado. Costumava passar muitas noites em branco, percorrendo as ruas parisinas durante horas e horas ao volante do meu Citroen. Ia parando em bar atrás de bar até ter bebido o bastante para entrar naquele estado em que já tudo me era indiferente, em que todas as penas desapareciam e podia sentir-me calmo, ao abrigo do efeito anestésico do álcool. Ás vezes quando finalmente regressava a casa já tinha amanhecido. Dormia até ás tantas da tarde, e nessa época já tinha deixado de ir á faculdade. Não queria falar com ninguém e, depois de muitos esforços frustrados, amigos e familiares já tinham desistido de chamar-me á razão.

Apenas um ano antes tinha tido um futuro promissor a minha frente, era um bom aluno, tinha uma namorada e um irmão mais novo ao que amava. Mas depois que o meu irmão morreu num acidente de carro, a minha vida tinha-se simplesmente convertido num inferno. Tínhamos ido visitar os nossos avós em Marselha no fim-de-semana, e na volta tivemos um acidente. Eu ia a conduzir. Eu tinha sobrevivido, o meu irmão não. Não conseguia encarar os meus pais, escutá-los dizer que não tinha sido culpa minha enquanto percebia nos seus olhares uma dor imensa e, quase imperceptível, uma acusação sutil: “tu conduzias, tu tinhas obrigação de protegê-lo, tu eras o mais velho...”

Nas minhas excursões noturnas eu frequentava regularmente alguns dos piores lugares da capital e acabei por começar a ir muito a um clube nos subúrbios. Ia lá duas ou três vezes por semana. Era um prostíbulo, um bordel, uma casa de putas. Chamava-se Kiev, provavelmente porque a maior parte das prostitutas vinham do leste de Europa. Uma dessas prostitutas era a razão que me levava a esse clube. Chamava-se Irina. Era como um anjo lascivo, provocante mas terna. Tinha cabelos doirados, pernas longas e um corpo perfeito magro e curvilíneo. Fazíamos amor e via Deus nos seus seios pequenos e redondos, afogava-me nos seus olhos azuis e confessava os meus pecados. Encontrávamo-nos com cada vez mais freqüência, o que me obrigava a pedir dinheiro aos meus pais em maiores quantidades todos os meses. Sem sequer me aperceber, tinha me apaixonado por uma prostituta.

Depois de conhecer a Irina as coisas começaram, dentro do possível, a melhorar na minha vida. É difícil explicar como apaixonar-se por uma prostituta pode melhorar a vida de alguém, mas no meu caso tinha sido, de uma certa forma, a solução aos meus problema. Não conseguia falar com os meus pais nem com os meus amigos porque me sentia demasiado perto deles. E tinha recusado a ajuda de um psiquiatra apesar da insistência dos meus pais porque não estava preparado para entregar as chaves da minha consciência a um estranho. Mas com a Irina era diferente. No começo era só sexo, mas depois de estar com ela durante algumas noites tive a sensação de que a conhecia, de que podia confiar nela. Com ela senti que podia conversar, porque sabia que ela não me ia julgar. Não podia falar com os meus pais porque sabia que no fundo eles me consideravam o culpado pelo que tinha acontecido ao meu irmão. E não podia falar com os meus amigos porque não me sentia pronto para revelar os segredos mais profundos da minha mente a pessoas que não poderiam nunca entender a minha situação. Eles nunca tinham tido que lidar com o que eu estava a lidar. Não era só a perda de um irmão mais novo. Era também o sentimento de culpa por ter sido o responsável pela morte dele, e a sensação de que os meus próprios pais me odiavam por isso. Mas com a Irina era diferente. Afinal, ela era uma puta. Quem ela era para me julgar? Não sabia exatamente a história da vida dela, mas sabia o suficiente para ter a certeza que ela sabia o significado da palavra sofrimento. E por outro lado, ela também não era pura. Éramos como duas almas manchadas, dois anjos caídos, duas existências marcadas por acontecimentos nefastos que nos tinham roubado a inocência e a alegria de viver.

Embora tivéssemos percorrido caminhos diferentes, partilhávamos essa condição trágica, de duas pessoas que tinham simplesmente perdido qualquer esperança de alcançar a felicidade nesta vida. Talvez por isso nos começamos a sentir atraídos um pelo outro. Era como se com ela eu pudesse esquecer todos os meus pesadelos, deixar para trás todos os demônios que me atormentavam, e começar de novo. Sabia que ela nunca me julgaria, porque ela também estava a tentar livrar-se dos próprios demônios. Estupidamente, comecei a acreditar que havia uma pequena possibilidade de que, juntos, pudéssemos começar uma nova vida, deixando o passado para trás e criando um novo e belo futuro.
Cada noite que passávamos juntos contribuía para que nos aproximássemos mais um do outro e ingenuamente ambos fomos enganados pela doce ilusão de um futuro melhor, talvez mesmo juntos e fora daquele lugar.

Mas eu devia ter percebido que a nossa história só poderia acabar em tragédia. Afinal, as pessoas só vivem felizes para sempre nos contos de fadas, e nós não vivemos num desses contos, mas sim na crua e dura vida real. Não demoraria muito até que a realidade me confrontasse e devorara os meus sonhos.

Eram as doze e meia da noite e conduzi o meu carro até ao clube nos subúrbios de Paris para encontrar a minha doce Irina, mas sabia que alguma coisa estava errada quando me disseram que aquela noite não podia vê-la. Perguntei-lhes se estava com outro cliente. Disseram-me que sim mas não acreditei. Vi logo nas caras deles que havia alguma coisa errada. Disseram-me que voltasse a casa ou que se quisesse podia escolher outra prostituta. “Aqui temos muitas mulheres bonitas.”. Não escutei e fui directo ao seu quarto, antes de que me pudessem impedir. Arrombei a porta e vi-a prostrada no chão, como um anjo caído e maltratado. Tinha a cara desfigurada, mal a reconhecia, mas era ela, desfigurada por uma surra que devia ter durado horas pelo aspecto que apresentava. Como era possível? Entre soluços contou-me o que tinha acontecido. O dono do clube tinha tentado violá-la, ela tinha tentado resistir, mas ele continuou a bater-lhe até ela não conseguir mais reagir.

Cegado pela ira, comecei a gritar e a exigir que me dissessem onde estava o responsável por aquela covarde agressão. Mas, como é óbvio, não só não me levaram á presença dele, como deixaram bem claro que não queriam voltar a ver-me naquele lugar. Surraram-me e expulsaram-me do prostíbulo, ensangüentado dos pés à cabeça. Com a vista nublada por sangue e lagrimas vi-a pela ultima vez, desfigurada pelo cruel espancamento. Quando já estávamos fora do bordel, o chefe saiu e veio na minha direção. Tentei alcançá-lo, mas só consegui levar mais alguns socos e pontapés dos capangas dele. Prostrado no chão olhei para cima e vi como ele olhava para mim com ar de escárnio. “Quem achas que és para criar problemas no meu bar verme? Tens sorte de sair daqui vivo. Com as minhas putas faço o que quero e tens sorte que não sejas o meu tipo se não ainda era capaz de te converter em uma delas.” Cuspiu-me na cara e deixou-me ali humilhado.

Depois que eles voltaram para dentro do prostíbulo, voltei ao meu carro e conduzi ate um descampado. Dentro do carro parado chorei, chorei ate que tivesse a certeza de que não me restavam lagrimas. Tinha sido um covarde, um maricas, um débil durante demasiado tempo, durante toda minha vida. Mas agora já não restavam lágrimas para chorar e a minha alma era negra como carvão. Soube naquele preciso instante, quando a ultima lagrima escorria pelo meu rosto que não me restava nenhuma espécie de misericórdia, estava portanto preparado para fazer o que precisava ser feito. As minhas deambulações por Paris tinham-me ensinado onde comprar drogas e a quem. Imaginei que eles soubessem onde poderia comprar armas. Perguntei-lhes quem vendia armas, eles deram-me um contacto e nessa mesma noite consegui comprar uma Beretta usada.

Conduzi até á rua onde ficava o bordel outra vez. Já eram cinco da manha. Já não chegaria mais cliente nenhum essa noite e os que permaneciam no antro não sairiam ate dentro de umas quantas horas. Uma meia hora mais tarde ele saiu do bordel. Acompanhavam-no dois dos capangas que me tinham espancado antes. Passaram em frente do meu carro, mas com a escuridão não repararam em mim. Caminharam mais alguns metros ate parar em frente a um carro, um BMW e o chulo destrancou o automóvel. Saí do carro e assobiei. Viraram-se os três. Não me reconheceram pois estava coberto pelo negro manto da noite e tinha o capucho posto. Aproximei-me até ficar a menos de um par de metros dos três indivíduos. Tirei o capucho. Disparei duas vezes a arma. Ele tentou fugir mas tropeçou num dos cadáveres. Implorou-me que não o matasse. Disse-me que estava arrependido, que era uma estupidez matar um homem por espancar uma puta. Disse-me que poderia ter todas as que eu quisesse. Que pagaria tanto quanto fosse necessário para não o matar.

“Não quero dinheiro, quero vingança. Levanta-te! Levanta-te!” Ele levantou-se e estivemos alguns segundos frente a frente separados por menos de um metro, ele era mais alto, mas era eu quem levava a pistola. Estava em piloto automático desde que tinha saído do carro. Assistia a tudo como um espectador enquanto o meu corpo atuava sozinho perpetrando a vingança que lhe havia exigido o meu espírito. Era como se eu nunca tivesse saído do carro, como se estivesse assistindo a tudo desde uns olhos que não eram os meus, uns olhos que viam tudo vermelho de sangue. Senti o frio aço da pistola na minha mão. Senti o seu peso, acariciei o gatilho, apontei para onde sabia que doeria mais e disparei. Àquela distancia teria sido impossível falhar mesmo para um cego. Senti prazer enquanto ele se retorcia no chão da rua. Mais prazer do que pensava que sentiria. Ele não voltaria a possuir nenhuma mulher. Provavelmente morreria antes de chegar a um hospital, mas eu esperava que assim não fosse, esperava que vivesse e lamentasse cada dia da sua miserável existência o dia em que me conheceu.

Regressei ao meu carro e arranquei. Não voltaria a ver a Irina nunca mais, mas aquele era o meu presente para ela, tinha feito o que ela não teria tido possibilidade de fazer. Nessa mesma madrugada deixei uma nota aos meus pais e abandonei Paris. Até hoje nunca lá voltei. Aquele episódio foi o começo de uma nova vida para mim, por isso de uma certa forma o meu sonho de começar uma nova existência materializou-se de certa forma, embora não da forma que eu tinha imaginado. Algumas vezes senti vontade de regressar àquele lugar e descobrir se ela também encontrou um novo rumo, mas até hoje não fui capaz de fazê-lo, um pouco por medo de ser descoberto e um pouco porque não sei como reagiria ao voltar a vê-la. Mas espero sinceramente que, esteja onde ela esteja, ela tenha sido capaz de começar uma nova vida. Talvez um dia o averigúe, mas aconteça o que acontecer, nunca me esquecerei daquelas noites que passei na companhia daquele aquele anjo caído quando éramos ambos reclusos no mesmo inferno terreno.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Ultimo Dia

O meu nome é Billy Summers e este é o último dia da minha vida. Estou prestes a ser assassinado num bosque a alguns quilômetros de Boston, e os encarregados de me matar são dois brutamontes que antes trabalhavam para mim, Dan Sullivan e John O’Connor.  

Caminhamos rumo ao bosque cerrado, onde ninguém vê, onde ninguém ouve,
onde é fácil fazer alguém desaparecer, alguém como eu...
- Não é nada pessoal Billy, preferiria não ter de fazer isto... Ajoelha-te.
- Não.
Golpe seco na barriga e caio ao chão sem fôlego. Estou ajoelhado, e vejo como os dois irlandeses entrecruzam olhares, de certeza que os dois estão á espera que o outro tome a iniciativa, ninguém que sujar as mãos desnecessariamente.

Finalmente, John encosta a arma na minha cabeça e após um segundo de hesitação prime o gatilho mas a pistola não dispara, provavelmente porque está travada. Não me surpreendo, porque ele sempre foi um imbecil. Dan, com quem eu costumava jogar poker nas sextas-feiras e a quem perdoei tantas vezes as dividas, afasta-o e saca a pistola para acabar comigo. Aponta ao meu peito. Vejo nos olhos dele que no fundo ele não quer fazer isto, mas sei que ele não tem escolha. Sei que o meu tempo acabou, este é o fim da linha.

De repente a minha vida toda começa a passar diante dos meus olhos, tal como dizem que acontece a uma pessoa antes de morrer. Imagino que estou protegido, envolto pelos braços da minha mãe, como se fosse um bebe. Recordo quando era um miúdo e íamos ao parque todos os fins-de-semana e brincava com os meus irmãos correndo entre as copas das árvores. Recordo quando, junto aos meus companheiros de colégio, após uma noite de verão, dormimos no bosque, olhando as estrelas no céu. Lembro-me como tantas vezes depois de sair por D.C. á noite, acabávamos no portão do nosso colégio e fazíamos concursos para ver quem agüentava mais tempo mijando no portão. Lembro-me quando conheci Cristine, a minha primeira namorada, Depois de a conhecer nao consegui falar com ela sem gaguejar durante dois meses e quando finalmente arranjei coragem perguntei se queria ir ao cinema comigo e ela aceitou. Lembor-me do nosso primeiro beijo, demorei uma hora para finalmente beija-la enquanto assistiamos a um filme de terror no cinema, e quando finalmente nos beijamos nao consegui parar de tremer porque nunca tinha estado tao nervoso na minha vida inteira.

Alguns anos depois deixei a casa dos meus pais para lançar-me á aventura, conhecer o mundo, tornar-me um homem. Primeiro cheguei a New York, onde tive vários trabalhos, depois mudei-me para Chicago, e finalmente para Boston, onde acabei por conhecer Jack Finnigan. Arranjei trabalho como barman num dos bares que ele tinha na cidade. Tinham todos o mesmo nome, Finnigan’s, mas estavam em bairros diferentes da cidade. O bar onde eu trabalhava estava localizado em South Boston, o lugar mais irlandês de Boston. Não sei porque o velho Finnigan me contratou, porque eu era o único empregado lá que não era Irlandês e de Boston. Suponho que ele tenha gostado da minha cara. Eu tinha chegado a Boston sem muito dinheiro, e estava á procura de um trabalho qualquer, tal como eu tinha feito em New York e Chicago antes. O Finnigan’s pareceu-me um bar como outro qualquer. Na altura eu não fazia idéia de que aquele velho, de cabelos brancos e expressão carrancuda, era na verdade um dos gangsters mais poderosos de Boston. O Finnigan não tratava de negócios no bar de South Boston, mas bastava dizer que eu trabalhava no bar dele e as pessoas afastavam-se logo de mim. Ele era muito conhecido em Boston, e não demorou muito até que tivesse entendido que estava, involuntariamente, a trabalhar para um dos senhores do crime de Boston. Ao princípio tive medo, porque nunca tinha tido contacto directo com o crime organizado, embora tivesse tido alguns problemas com a autoridade em Washington e New York, mas com o tempo, a idéia de trabalhar para um senhor do crime tornou-se menos assustadora e mais aliciante. Também fui conhecendo o velho Finnigan melhor, porque ele ia ao bar todos os dias, e começamos a gostar um do outro. Eu admirava-o pela sua sabedoria e poder e ele devia sentir-se atraído pela minha juventude e pelo estilo de vida nômade que eu levava. O  velho Finnigan, tanto quanto eu entendia, nunca tinha saído de Boston, e costumava interessar-se bastante pelas minhas estórias de viagens pela América.

Uma noite, estávamos quase a fechar o bar, e só lá estávamos eu e mais dois empregados. Um homem mascarado entra armado com uma pistola e diz que é um assalto. Pobre coitado, não fazia a mínima idéia de quem estava a roubar. Eu sabia que ele estava condenado desde o momento que o vi, mas mesmo assim tive medo que ele me matasse. Nessa altura eu ainda não sabia, mas os outros dois empregados estavam metidos em outros negócios bem mais ilícitos do que o bar, e ambos andavam armados. Enquanto eu abria a caixa, um deles teve tempo de sacar a pistola e disparar duas vezes, mas falhou um dos disparos e acertou no braço do ladrão da segunda vez. O ladrão, embora ferido e apanhado desprevenido, tinha melhor pontaria e acertou em cheio na testa dele, matando-o instantaneamente. O outro empregado também disparou entretanto, desta vez acertando o bandido no estomago, mas este ainda teve forças para retaliar, e meteu-lhe uma bala no estomago e outra no peito. Então ele apontou a pistola na minha direção e disparou para matar, certamente pensando que eu também estaria armado, mas eu consegui esquivar-me ao mergulhar para baixo do balcão. Ouvi como ele disparava mais três vezes enquanto caminhava na minha direção. Instintivamente agarrei numa garrafa e, alçando-me, atirei-a contra o ladrão. Acertei-lhe em cheio na cabeça e ele desmaiou. Estava inconsciente e gravemente ferido, mas não estava morto. Os meus dois companheiros sim. Pensei em telefonar para a policia mas não o fiz, não sei exatamente porquê. Em vez disso telefonei para o senhor Finnigan. Em cinco minutos tinha chegado ao bar acompanhado por outros três homens e a polícia ainda não tinha aparecido. Num quarteirão comum, se tivesse havido um tiroteio a policia teria sido avisada imediatamente, mas ali era algo relativamente comum, e toda a gente por ali sabia o tipo de gente que costumava frequentar aquele bar, o tipo de gente do qual convém manter-se afastado. Por isso não só a policia não chegou logo, como só veio quando nós os chamamos, uns vinte minutos depois. Quando Finnigan viu o ladrão disse a um dos seus homens para tirar-lhe a mascara e para o acordar e disse a outro para buscar a pistola de Brad, um dos empregados mortos. Depois disso mandou-me pegar na pistola, o qual eu recusei ao principio, mas depois dele insistir acabei por o fazer. “Dispara-lhe duas vezes no peito,” disse-me. Não sabia como reagir. “Não sou um assassino, respondi”. “É em auto-defesa,” disse-me o velho Finnigan, “ele merece-o.”
O ladrão tinha sido reanimado ás bofetadas por um dos homens de Finnigan, mas depois do choque e da quantidade de sangue que tinha perdido, parecia mais um cadáver do que uma pessoa viva. “Sabes de quem é este bar?”, perguntou Finnigan ao ladrão, mas ele não conseguiu dizer mais do que “Desculpa” antes de cuspir uma quantidade impressionante de sangue e começar a chorar e a implorar para que não o matassem. Era mais jovem do que eu, não devendo ter mais de vinte anos. Era branco e tinha cabelos curtos e loiros. Estava apavorado. Finnigan voltou a dirigir-se a mim, “Lamento que isto tenha acontecido Billy, mas agora já não há volta atrás. Pega na pistola.” Soube então que se não o fizesse provavelmente eu também não passaria daquela noite. Peguei na pistola e disparei.

Naquele dia a minha vida mudou para sempre. O senhor Finnigan tinha razão quando disse que não havia mais volta atrás. Depois desse dia, estava “dentro”, era um gangster. Continuei a trabalhar no bar durante algum tempo, mas agora de vez em quando a minha presença era requerida em outro tipo de “trabalhos”. A minha subida de barman a braço direito do senhor Finnigan foi tão acelerada que surpreendeu a todos, especialmente a mim. O negócio central da organização era o tráfico de drogas, mas também havia o contrabando de armas, clubes de prostituição, “proteção” de lojas e restaurantes, jogo e os negócios legítimos como bares e negócios imobiliários. Era um Império que eu cheguei a conhecer melhor do que quase ninguém, excepto o próprio Finnigan e um par de veteranos.        

Antes de chegar a Boston era um Zé ninguém, mas graças ao senhor Finnigan converti-me num príncipe da cidade. Em South Boston todos sabiam quem eu era. Não tinha que fazer reservas para comer em restaurantes, e sempre me davam a s melhores mesas; não tinha que fazer fila como as outras pessoas para comprar o pão na padaria ou enviar uma carta nos correios; quando ia a um bar, as bebidas eram sempre por conta da casa. Era temido e respeitado, e ninguém me podia tocar. O senhor Finnigan foi me dando mais e mais responsabilidades e poder dentro da organização. Ele não tinha nenhum filho, e pode-se dizer que de certa forma ele me adoptou. Mas no fundo eu nunca cheguei a ser um verdadeiro gangster, um homem de ferro, um durão. Falhei no teste quando o FBI me encurralou, entre uma vida de glória na prisão e uma vida de cobarde em liberdade acabei por escolher a segunda. Não sei como ele descobriu que eu estava a falar com o FBI, mas agora já não importa.

Ouço o estrondo que faz a pistola quando é disparada, sinto como a bala atinge o meu peito e deixo de respirar, perco a consciência, sentindo o frio de uma manhã de outono pela ultima vez.

Vejo uma grávida incrivelmente bela e desejo que todas as mulheres do mundo engravidem, e nado no seu interior alimentado pela placenta e ansioso por
voltar a nascer. Mas acomodo-me e percebo como sou feliz sem preocupar-me
por nada, alimentando-me ao comer o que ela come, plácido e contente no
morno envoltório redondo, sem olhos para ver nem ouvidos para ouvir mas
sabendo que sou amado. Já não distingo as cores nem as vozes nem posso apreciar como o tempo passa porque a existência já não me pertence, tudo o que passou já não me diz respeito.

Num ultimo pensamento lamento que os meus pais tenham que enterrar um filho sem corpo. Nunca saberão a verdade.  Sou um soldado desconhecido, sou um filho desaparecido, sou a realeza assassinada, sou uma memória infame, sou um nome que já ninguém pronuncia, sou um traidor.. não sou nada.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O Sonho

Sou uma pessoa como tantas outras, não possuo nenhuma qualidade que me faça destacar da multidão, não tenho nenhum talento, não sou particularmente bom a nenhum desporto e poucas coisas verdadeiramente interessantes aconteceram ao longo da minha vida. Suponho que se algum dia decidisse escrever uma autobiografia, ninguém teria o menor interesse em lê-la, e certamente não poderia recriminá-los por isso. A única coisa que me aconteceu digna de ser relatada, passou-se há alguns anos atrás, na Costa da Caparica. E mesmo assim, até hoje não sei se o que eu me lembro daquele dia aconteceu realmente ou não passou de um sonho.

Era verão, e nesse dia tinha decidido ir á praia com alguns amigos. Nunca fui um bom nadador, por isso não tinha o costume de me distanciar muito da costa quando ia á água. No entanto nesse dia em específico, talvez porque me sentisse especialmente temerário ou simplesmente por pura estupidez, decidi nadar até mais longe da costa, rumo ao mar aberto. Na verdade, não tinha intenção de me distanciar tanto da praia como acabei por fazer, mas ás vezes, quando se está a nadar de costas para a praia, é fácil perder a noção da distancia. O facto é que quando dei por mim estava já bastante longe da praia e por isso, como sabia que não era grande nadador, fiquei algo apreensivo. Portanto procedi imediatamente a nadar em direção á praia, onde vi as pessoas que agora pareciam quase do tamanho de formigas. Ainda assim, em circunstancias normais, mesmo sendo um nadador medíocre, ter-me-ia bastado nadar cerca de dez minutos em linha reta para voltar á praia. No entanto, como acontece com freqüência nas praias da Costa, a corrente naquele dia estava a puxar bastante em direção ao mar. De forma que apesar de nadar o mais rápido que podia durante quase quinze minutos, não parecia ter-me aproximado nada da praia. Comecei então a ficar realmente assustado, e comecei a pensar que talvez não conseguisse voltar á praia sem ajuda. Infelizmente, nenhum banhista tinha se afastado tanto da praia como eu, e portanto nem sequer tinha ninguém perto que me pudesse ajudar. Comecei então a nadar de forma ainda mais vigorosa, tentando ganhar o maior número de metros possíveis e aproximar-me pelo menos o suficiente para poder pedir auxílio. Consegui aproximar-me da praia, mas tive que nadar pelo menos dez minutos e fazer um esforço enorme para o conseguir. Como eu não sou um bom nadador, e nem mesmo um bom atleta, nessa altura já estava tão exausto que mal conseguia respirar. Comecei a gritar e a agitar os braços, na esperança que alguém me visse, porque já não conseguia nadar mais nem um metro. Estava exausto, e começava a temer seriamente pela minha vida. A cada segundo que passava as minhas chances de ser resgatado diminuíam um pouco mais, porque sentia como as forças me abandonavam e, agora que já mal conseguia dar braçadas, a corrente começava a arrastar-me outra vez para o mar aberto.

Estava agora verdadeiramente em pânico e completamente exausto. Não tinha já sequer força suficiente para lutar contra a corrente. Esforçava-me em agitar os braços no ar e gritar o mais alto que conseguia, tentando atrair a atenção dos banhistas e, quem sabe, de um salva-vidas. Achava que , depois de todos os meus esforços, dos meus gestos frenéticos e gritos, alguém teria me visto. Senão, pelo menos os meus amigos teriam já nesta altura se dado conta de que eu já estava no mar há mais de meia-hora e teriam alertado o guarda salva-vidas. Sim, alguém viria resgatar-me em breve, só que talvez não me resgatassem a tempo pensei. Estava agora tão exausto que já mal conseguia agitar os braços, e tinha que me esforçar ao máximo para manter-me á superfície. Sentia como era arrastado cada vez mais para o mar aberto e como cada vez tinha menos forças para resistir á força da corrente. Já não conseguia manter-me á superfície. Via gente á distância, embora talvez tivesse a alucinar, e achava que vinham socorrer-me, mas a praia parecia cada vez mais distante. Já não me conseguia manter á superfície. Estava sem fôlego, os meus braços ardiam de cansaço e as minhas pernas doíam tremendamente devido ás cãibras. Afundava-me como um galeão espanhol nas profundezas do mar. Talvez nunca ninguém me encontraria. Agitava-me como se tivesse a ter um ataque epiléptico, mas só conseguia afundar-me mais e mais. Sentia como o oxigênio se terminava e não podia já ir á tona porque não tinha mais forças.      

Foi então que penetrei num outro mundo, ainda mais longínquo, de onde pensei nunca mais voltar. Descendi ás profundezas não só do mar, mas da própria existência de todos os seres. Já não tinha aquela sensação de falta de oxigênio que, alguns instantes antes, me atormentava de forma tão atroz. O pânico que tinha me dominado alguns segundos atrás, um pânico tão absoluto que não poderia descrever em palavras, tinha sido substituído por um sentimento de resignação. Por alguma razão inexplicável, tinha perdido até mesmo a vontade de voltar á tona e respirar. Era como se uma fosse sobrenatural me estivesse a atrair para o abismo mais profundo da terra, para o fundo dos mares, para os confins da existência. Á medida que me distanciava da superfície, menos necessitava de oxigênio, e mais á vontade estava debaixo de água. Era como se me tivessem crescido guelras e eu nem me tivesse dado conta. Enquanto continuava a minha descida, tornava-me mais consciente do imenso vazio que agora me rodeava, da escuridão absoluta do mar, da imensidão do oceano,  do silencio reinante nas trevas... Continuava a cair e a cair e a cair, num vazio que se estendia até ao infinito. Mas era uma queda suava, era como um explorador marino, viajando através dos abismos marítimos, decifrando os seus mistérios.

É difícil explicar como, naquela suave queda, rumo aos confins do universo, tudo o que eu tinha aprendido numa vida inteira na terra deixou de ter a menor importância, ou mesmo de fazer qualquer sentido. Cercado pela vastidão do mar, envolto nas trevas mais escuras, aturdido pelo silencio mais profundo, toda uma vida passada na terra, vinte e cinco anos de existência, deixaram de ter a menor importância Respirar ou não respirar, viver ou morrer, nada disso era minimamente relevante. E as memórias, as experiências vividas que eram uma parte tão relevante do meu caráter, dissolveram-se completamente nas águas negras que me cercavam. Sobrava apenas o mais essencial, chame-se-lhe alma, espírito ou essência. Navegava pelos mares escuros mais ligeiro do que havia sido jamais, reduzido ao mais essencial do meu ser, purgado de todas as coisas que haviam turbado a minha essência durante todos aqueles anos de vida.

Pensei que cairia para sempre, e que nunca chegaria ás profundezas porque os abismos por onde navegava eram infinitos. Mas talvez isso não fosse certo, porque a um certo ponto a escuridão deixou de ser absoluta como antes, e o silencio foi quebrado por sons que, ao principio eram tão baixos que não pude identificar de que se tratava, mas depois se intensificaram e pude perceber que estava a escutar uma espécie de canto. O som tornou-se progressivamente mais alto e nítido, dando a impressão que o que originava os sons se aproximava de mim. Também, á medida que o canto se tornava mais alto, o espaço ao redor de mim se tornava mais claro, até que comecei a vislumbrar um foco de luz, no horizonte que parecia vir na minha direção. Quando o pude escutar bem, percebi que o canto era o som mais extraordinário que eu jamais havia escutado. Era algo absolutamente maravilhoso, um som que não poderia originar de nenhuma criatura humana, nem de nenhum instrumento musical de origem terrestre. Era um canto belíssimo, que tinha dissipado as trevas e o frio que me envolviam. A sensação de perda que tinha me acompanhado na minha queda tinha desaparecido, e o medo tinha sido substituído por felicidade. Não se tratava de palavras, mas simplesmente de uma melodia, entoada por uma voz extraordinariamente doce mas ao mesmo tempo poderosa. Nem a mais bela melodia de Mozart poderia comparar-se com aquele canto sublime. Tinha uma qualidade divina, que não poderia ser imitada por nenhum homem ou mulher. Enquanto observava o foco de luz, que embora ainda fosse distante ia aumentando de intensidade a cada segundo, pude vislumbrar pela primeira vez a forma daqueles seres. Ao princípio pensei que se tratasse de apenas uma criatura, mas depois percebi que eram várias que nadavam na minha direção, surgindo das trevas longínquas, movendo-se graciosamente e emitindo aquele som fabuloso. Quanto mais se aproximavam melhor distinguia os seus traços. Eram sereias, tal como eu as tinha sempre imaginado. Rodeava-as uma luz intensa, que iluminava as águas sua volta. Nadavam graciosamente, apenas contorcendo o corpo, como golfinhos, de forma graciosa. As suas feições eram extraordinariamente belas, e nesse aspecto não as distinguiria de mulheres humanas, embora as sereias fossem todas excepcionalmente formosas. Os seus cabelos eram doirados, como se fossem feitos de puro ouro. Os olhos eram cinzentos, mas só reparei nisso quando estavam realmente perto de mim. Os seus corpos eram também extremamente bonitos, sendo que a parte superior era igual ao das mulheres humanas, mas a parte interior era uma cauda, cumprida e esguia, composta de escamas com uma cor-esmeralda. A visão daqueles seres era sem dúvida a coisa mais extraordinária que alguma vez tivesse presenciado.Eram tão belas, e tinham uma aparência tão divina, que não teria ousado resistir nem por um minuto aos seus desejos.

Quando finalmente se aproximaram o suficiente para que eu pudesse ver as suas caras claramente, e mesmo tocá-las se tivesse a ousadia necessária, começaram a nadar á minha volta. Não sei o seu número exacto, mas deviam ser pelo menos uma dúzia. Enquanto nadavam, de forma quase sincronizada á minha volta, pude também sentir o aroma que exalavam, que era o melhor cheiro que alguma vez tinha sentido. O seu canto divino ressoava chegava agora até aos confins da minha mente, e o seu encanto tinha me dominado por completo. Dançavam e nadavam e giravam á minha volta, roçando-me com as suas delicadas mãos e cantando de forma maravilhosa. A visão daqueles seres, de busto descoberto  cabelos doirados era deslumbrante. As suas caudas deixavam um rasto de cor esmeralda que cortava o mar, agora todo dourado, graças á luz emanada pelas sereias.

Duas sereias agarraram-me nas mãos e começaram a levar-me ainda mais para as profundezas, e as outras sereias nadaram ao nosso lado e atrás de nós. Continuamos a nadar durante algum tempo, até que eu comecei a vislumbrar alguma coisa que se erguia nas profundezas. Parecíamos finalmente ter chegado ao nosso destino. Tive a sensação de que a água se tornava mais quente á medida que avançávamos, e pouco a pouco a água passou de fria a morna e de morna a quente. Comecei a sentir-me desconfortável  tentei voltar para trás, mas as sereias continuaram a arrastar-me rumo ao que me parecia uma cidade de fogo, nas profundezas do mar.

Quanto mais nos aproximávamos mais quente se tornava a água, até tornar-se verdadeiramente insuportável. Mas embora estivesse agora a tentar voltar para trás com todas as minhas forças, nem sequer conseguia abrandar as sereias, que seguravam as minhas mãos com uma força sobre-humana. Antes as suas mão tinham me parecido suaves como ceda, mas agora eram duras como mármore. Tinham começado por guiar me gentilmente pelas profundezas do mar, mas agora puxavam-me contra a minha vontade e apesar do meu desespero. Gritava de dor mas os meus gritos eram abafados pelo canto das sereias, que agora não era mais belo e pacífico, mas tinha se transformado numa melodia épica e sinistra. Senti no meu peito um medo que nunca tinha sentido antes, nem sequer enquanto me afogava, e notei como a minha pele se dissolvia agora nas águas ferventes.       

Á minha frente erguia-se um palácio de fogo, tão grande que parecia entender-se eternamente. Mas não se tratava de uma construção como aquelas que se vêm no nosso mundo. Em vez de ser construído verticalmente, toda a construcção era como uma enorme parede no chão, e no meio havia um portão enorme. Era, como se eu pudesse ver um dos lados da estructura, mas o seu volume estivesse construído para além do fundo do abismo oceânico. Á medida que nos aproximamos, os imensos portões se abriram, e finalmente penetramos naquele sub-mundo, que existia para além dos confins do universo. Quando cruzamos os portões, as sereias abandonaram-me e voltaram para atrás, mas eu não conseguia fazer o mesmo embora tentasse. As águas tinham-se transformado em chamas, e eu agora queimava nos fogos do infra-mundo, sem poder mover-me, porque demônios agarravam as minhas pernas e puxavam-me para baixo. Á medida que avançávamos, pude ver como tantos homens e mulheres eram torturados pelos muitos demônios que habitavam o palácio infernal. Os meus gritos de dor uniam-se a milhares de gritos agonizantes, que ecoavam pelos salões daquele enorme mansão dos horrores.
Percebi então que não poderia estar em nenhum outro sítio que não fosse o mesmíssimo inferno.

Vi como demônios de aspecto atroz agora devoravam os meus membros, enquanto diabretes  me alfinetavam os olhos. Mas os meus membros cresciam outra vez, apenas para voltarem a ser devorados e os meus olhos regeneravam-se vezes sem conta para poderem voltar a ser furados.

Uma procissão de seres demoníacos guiou-me até uma sala, e ataram-me a uma mesa. Um ser diabólico com cornos pretos, pele vermelha e cauda de bode abriu as minhas entranhas com as suas garras afiadas, e comeu os meus intestinos enquanto eu me debatia, sem esperança de sucesso, tentando libertar-me.
A refeição durou quase eternamente, até que uma intensa luz debandou os demônios que me rodeavam, e vi como uma lança traspassava o corpo do diabo torturador. Então vi como pairava, sobre nós, um imponente cavaleiro, montado sobre um cavalo com enormes asas, brancas e imaculadas, erguendo um estandarte que não reconheci e pensei, pelo seu caráter algo andrógeno, e a julgar pelos cabelos, curtos e loiros reluzentes como o ouro, que talvez aquela fosse a mítica Joana de Arco transformada em anjo. Ajudou-me a montar no seu cavalo, e cavalgamos pelos corredores do inferno, ascendendo rumo á lua que se erguia no horizonte. Deixamos os corredores infernais e cruzamos o espaço negro, recheado de estrelas, até chegar ao mais belo jardim em todo o universo.

Fomos recebidos pó uma hoste de querubins, e de pessoas, todas elas formosas e nuas.
Fui apresentado, pela própria Joana, embora nunca me tivesse dito o seu nome, a anjos
sem sexo, a mitos homens e mulheres belos e inteligentes, todos na plenitude da sua juventude, e finalmente a homens ilustres que descansavam no céu depois de ter vivido vidas plenas e completas na terra. Despedi-me de Joana e entrei num castelo de vidro no topo de uma colina, e numa das salas do castelo vi como se reuniam o Rei Artur com os seus cavaleiros. Jantei com eles durante várias noites, desfrutando de banquetes na companhia de lendas e bebendo vinho durante serões inteiros enquanto escutava virgens tocando maravilhosamente a harpa. Ouvia as histórias que os cavaleiros contavam todas as noites sobre as suas aventuras imortais, e maravilha-me com a sua bravura e integridade.  Numa outra sala do castelo encontrei  Mohamed fumando chicha e sentei-me com ele, fumando e discutindo sobre religião. Muitas noites depois, cheguei a oura sala, onde vi Siddarta meditando num altar budista. Juntai-me a ele e tornei-me seu discípulo, e durante vários meses aprendi muitas coisas sobre os mistérios da existência com ele. Finalmente, desejei partir e conhecer o resto do universo e despedimo-nos.

Deixei o castelo de vidro, e abandonei o jardim do éden. Antes de partir, Buddha presenteou-me com um Cadillac e tomei uma auto-estrada cujo placar dizia “direção realidades paralelas”.  Percorri caminhos que não poderia começar a descrever na língua dos homens, sem que isso me parecesse um imenso sacrilégio. Viajei por essas estradas durante o que me pareceram milênios, rumo a destinos tão diversos como insignificantes. E numa dessas viagens, percorrendo uma estrada bem asfaltada e bem sinalizada no meu Cadillac vermelho, uma estrada que ligava o céu a um planeta onde todos os homens vivem vidas inteiras sem pensar no significado das mesmas e conseqüentemente sem pensar em Deuses ou entes similares, vi um homem com uma longa túnica branca e cabelos longos castanhos e ondulados que fazia o sinal que os homens modernos fazem quando querem boleia. Dei-lhe boleia e disse-me que tinha curiosidade por ver como seria uma existência sem religião e se os homens que viviam lá eram mais ou menos felizes que os homens que tinham um Deus a quem orar. Apresentou-se como Jesus Cristo, e viajamos juntos e até chegar a essa terra dos homens descrentes, e vivemos lá durante algum tempo até que finalmente nos aborrecemos. Então voltamos a fazer-nos à estrada e viajamos no nosso Cadillac vermelho até chegar a uma terra em que todos os homens viviam somente para a religião e para os seus Deuses, mas eventualmente lá também nos aborrecemos e voltamos para o céu.  De volta no céu, tomamos chá preto e fumamos chicha de sabor menta com Mohamed discutindo sobre qual era a terra mais aborrecida, aquela em que os homens viviam sem religião ou aquela em que os homens viviam somente para a religião.

Um dia, enquanto estávamos a discutir sobre o céu e o inferno, Jesus explicou-me que no céu todas as pessoas são felizes e no inferno todas as pessoas são infelizes, mas que mesmo assim ás vezes as pessoas que vivem no céu aborrecem-se e vão ao inferno passar algum tempo e quando voltam tudo é muito melhor do que quando se tinham ido embora.  E no inferno, onde na verdade não existe nenhum guarda, nenhuma vala, nenhum muro nem nenhumas grades que realmente os empeça de sair de lá para sempre, as pessoas infernais ás vezes deixam a sua morada eterna e viajam ao céu e outros mundos mas não se sentem cômodos e voltam ao inferno porque depois de morrer ninguém tem corpo, nem medo de morrer, nem ânsias de ser rico, e todos os prazeres não são suficientes para satisfazer uma eternidade de desejos e tudo o que resta é uma profunda e exacerbada consciência sobre a nossa natureza e a validez dos nossos atos.

Um dia deixei o castelo de vidro, onde tinha vivido com Jesus Cristo e Mohamed durante tanto tempo, e onde tinha estudado religião com Sidarta, e jantado com rei Artur e os cavaleiros da távola redonda, e não consegui encontrar o caminho de volta. Voltei então a fazer-me á estrada no meu Cadillac vermelho, até que cheguei a uma planície onde abundavam os búfalos, e onde viviam os índios americanos massacrados pelo homem branco. Juntei-me então a uma tribo de índios que tinham morrido há mais de dois séculos atrás e consumi Peyote com eles, e rezei aos seus magníficos deuses  e possuí as suas mulheres e compreendi o significado da vida de mil formas distintas numa sucessão de momentos que me pareceram uma eternidade.

Esta última é a derradeira memória que me resta daquele mundo, pois quando o ar entrou nos meus pulmões, os meus músculos voltaram a ativar-se, e nas pontas dos meus dedos senti comichão e soube que queriam voltar a mexer-se. Acordei então do meu sonho sem perceber onde estava e porque ali estava. Lentamente, comecei a recuperar os sentidos, e logo a minha memória. Senti o Sol a bater na minha cara e abri os olhos, vislumbrando um homem que se inclinava sobre mim. Á nossa volta acumulavam-se vários curiosos observadores, que se debruçavam sobre nós tentando perceber o que estava a acontecer. Quando se deram conta que eu estava vivo a sua expressão deixou de ser sombria e muitos começaram a gritar e a bater palmas.

O guarda salva vidas estava debruçado sobre mim, ainda com um ar sério, mas visivelmente aliviado. Percebi que ele estava a falar, e dirigia-se a mim, mas não consegui perceber na altura o que dizia, e os sons que saiam da boca dele chegavam a mim abafados e distorcidos. Reconhecia as palavras que ecoavam no ar, mas ainda não conseguia discernir totalmente a sua lógica, e muito menos formular uma resposta. Mesmo assim tentei falar, mas não consegui. Embora tivesse aberto os olhos, e pudesse ver como aquele homem me olhava, e como havia gente á nossa volta, ainda não tinha tido tempo suficiente para deixar totalmente a dimensão onde eu estava antes, e voltar plenamente á realidade. Via, mas não acreditava realmente no mundo onde agora me encontrava. No fundo, parte de mim ainda estava no país dos mortos, onde tinha passado mil anos. A ambulância estava a alguns metros e, com a ajuda do guarda salva-vidas, os enfermeiros colocaram-me numa maca e levaram-me até ela. As pessoas continuavam a aplaudir á volta, enquanto os enfermeiros me colocavam, ainda prostrado na maca, no interior do veículo. Enquanto ouvia as sirenes da ambulância recordei a viagem ao submundo das mentes que eu tinha empreendido. Tinham passado dez minutos nesta vida, mas eu sentia-me como se tivesse voltado de uma odisséia que demorou pelo menos mil anos, na qual naveguei pelo país dos mortos até esquecer-me de quem eu era e até finalmente regressar junto aos vivos. Durante horas deambulei ainda entre os dois mundos, recuperando a minha vida antiga, reaprendendo as palavras e os gestos dos homens da minha terra, reavendo as memórias da minha existência mortal. E ainda hoje me pergunto se aquilo que eu vivi nesse dia foi realidade ou sonho, e se algum dia voltarei a percorrer aquelas estradas intermináveis com Jesus Cristo sentado a meu lado num Cadillac vermelho.